quinta-feira, 18 de maio de 2017

Aux voyageurs,

Mon voyage

"A viagem começa na biblioteca..."
Minha viagem começa no alto de uma página amarelada.
Segue letra por letra,
marca por marca,
palavra por palavra,
linha por linha,
frase por frase,
bloco por bloco,
parágrafo por parágrafo,
página por página,
e vai...
até desembocar.
[desbobra]
Rio gráfico que encontra um oceano de experiência.
Palavra escoando sobre as terras do pensamento,
desaguando no leito de meu corpo,
delta de meu nilo.
Letra que se dissolve no amazonas de minha existência.
desdobra-me, abro-me ao fora da existência,
estrageiriso-me, estranho-me,
desfaço-me, esfacelo-me,
desfalece-se em mim,
desabrocho em mar...


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Ce gouffre,

L'angoisse

Disfarço-a,
    assim, noutra língua.
Meio brincando,
    meio... dissimulando.
Questão de sobrevivência, sabe.
Pois, na transparência,
    a vida, crudelíssima,
    não deixa verdade sobre verdade.
Arte, então, é minha força; vigorosíssima
    habilidade humana
    de rir da desgraça e fingir não doer
    para poder seguir sem desfalecer,
    para poder gozar de alguma alegria
    no átimo que é viver.


domingo, 14 de maio de 2017

Crer para ver

Credo

Ele creu
Pacificado o recôndito do Eu.

Néscio sonho
De um mundo medonho,
Em que a miséria
Da calma e séria
Vida cheia de razão
Cobre como véu céus e chão.

Néscio sonho
De um mundo medonho
De culpa e perdão,
De poder e salvação,
De certeza e lembrança,
Em nome da bendita segurança.

Ele creu
Iluminado todo o resquício de breu.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

A M. Quintana

Grandiosidade

I

Grandiosa não é tua poesia porque me emociona
Ou agita meus pensamentos com um anexim.
Grandiosa é tua poesia porque me assalta
E leva um sorriso de mim.

II

Tua poesia é menos redentora
Do que é um animoso festim.
É ela sim um diabrete sintáxico
Que faz de meu riso seu butim.

III

No carnaval das palavras
Ela é  um ardiloso arlequim
A dar rodopios com meu humor
Trajado em fausto negro e carmesim.

IV

Tua poesia não é urbana,
Não ergue prédios em mim.
Vaga silente no deserto
De meu corpo, povo beduim.