sábado, 11 de dezembro de 2010

Coisas que a noite sussura ao ouvido de quem não dorme sorrindo:




COISAS QUE A NOITE SUSSURA AO OUVIDO DE QUEM NÃO DORME SORRINDO
ou
MINHA MISÉRIA

PRÓLOGO DA MORTE À MINHA MISÉRIA

Eu havia sido chamada.
Mas não fora um chamado qualquer
Um chamado que vinha do cerne.

Uma angustia calada
Ao seu lado, então, pus-me de pé.
Tocando de leve sua carne

Eu tinha muita paciência.
Sabia que me chamara com toda a sua força.
Sabia que era chagado o tempo do seu fim.

Sabia de sua ciência
Eu senti que sua alma agora era frágil como fina louça.
Sabia que nela sua alma seria tomada por mim.

Ali, então, apenas aguardei.

Em meu colo tomei seu corpo e acariciei-o pela primeira e última vez.
Eu sentia a dor e a certeza no que fez.
E com a calma de quem por mim uma vida inteira esperou.
Em seus braços a noite se deitou.
E então o sol jamais voltou a ousar perturbar tal sono.

Assim, termina o prólogo da Morte
A alguém que ao menos do seu próprio fim, foi dono. 
.

I. DA MISÉRIA APÁTICA E DA APATIA MISERÁVEL

Cada coração, que batia sem pulsar, que doía sem sentir, produzia apatia dentro dos corpos que o carregavam. O oxigênio que fluía em meu sangue era carregado de apatia. Apatia que era expelida ao expirar. Apatia que vazava aos poros, que se liberava na transpiração. Cada um era uma fonte inesgotável de apatia que carregava o ar ao redor. Assim, o ar era pura apatia. E um ciclo vicioso sem fim aparente mantinha a apatia em um crescendo à autodestruição, à insustentabilidade de qualquer Único no corpo social, de qualquer câncer no interior deste corpo moribundo.

II. DA MISÉRIA DAS SENSAÇÕES

E esse mesmo coração que um dia sabia-se como uma célula revolucionária ou não passava de um bolo de carne, um metrônomo a marcar o compasso do meu fim. Um bolo de carne incapaz de criar, de produzir qualquer coisa inominável. A inefabilidade tornou-se utopia dentro da pequena cadeia de sensações possíveis, então, ao meu corpo. Tudo o que corria pelo meu corpo já havia sido capturado, localizado, nominado, identificado, já tinha seu limites tão bem definidos que eu já sabia interpretá-los do começou ao fim, cada vírgula do texto, cada pausa, cada acentuação, cada nota a ser cantada já estava memorizada em minhas células, bastava deixar fluir, não havia mais o que pensar. A consciência era só uma repetição re-ordenada de um passado bem memorável e enfadonho.

III. DA MISÉRIA DE COMO SE VIVE

O chão e o céu formavam uma unidade, partes que completavam a estrutura de uma prisão. Uma prisão sem muros, uma prisão na qual eu mesmo mantinha-me em cárcere. Uma prisão que eu mantinha como forma de atestar a miséria. A miséria de vida que eu levava. A miserabilidade com que eu conduzia minha vida. Mantendo-me numa espécie de sado-masoquismo, onde a mediocridade era o prazer máximo que eu podia sentir e manter tudo ao meu redor neste estado de sub-existência e inanição fatal era tudo o que eu queria fazer. A miserável condição com que vivia era minha miséria mais essência, era a miséria mais incrustada em mim.

IV. DA MISÉRIA DE UM FIM

E por fim, sentei onde tantas vezes foi-me um lugar de contemplação. Contemplação de mim e do mundo ao meu redor. Foi ali que pensei que dar um tiro na cabeça seria tão covarde quanto ler um bom livro ou tomar uma xícara de café forte.
Dentre tantas xícaras de café que já tinha bebido em minha vida, dentre tantas noites sem dormir lendo livros para manter-me em algum estado de transe para evitar ver tudo isto que me cercava. Decidi experimentar o calor metálico de uma bala explodir meu cérebro, atravessando-o e rompendo meu crânio.


E foi assim que pus fim a minha “vida”.

V. DA MINHA MAIOR MISÉRIA

Dentre todas as misérias que assolavam minha alma e que geravam as angustias que solapavam meu túmulo. Uma miséria era a maior de todas:

Minha maior miséria não era não ter o que comer, ou não ter onde dormir. Era conseguir comer e dormir, quando havia tantos que viviam na miséria de não ter o que comer ou onde dormir.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Naquela noite

Eu queria algo forte
Algo que me doesse,
Algo com que eu chorasse
Algo que pra sentir a morte

Eu queria intensidade
Algo que fosse físico
Algo como um pigarro tísico
Algo além do cinza da cidade

Mesmo um beijo ácido
Ou um toque de veludo
Mesmo o tom mais agudo
Seria um sussurro plácido
Ante ao ribombar interno
Como gota na tempestade
Ali, morre toda a vontade
Tudo é um gélido inverno

terça-feira, 2 de novembro de 2010

E quando nada mais restar:

Cante uma canção
 (em notas curvas)

Agora, tanto faz se chove ou se é azul,
Se está em chamas ou se vale algum pul

Do que importa escolher entre o escolhido?
Veja, todo perfume de flor já foi colhido

O que importa dançar ou tomar um chá quente
Se os olhos ardem e o coração geme dormente?

As palavras estão esquecidas entre tintas
E todo veludo parece apenas pó e cinzas

Então deite em deleite,
Banhe-se em leite materno ou em uma droga qualquer,
Ou outra salvação,
Alguma promessa que faça as feridas doerem um pouco mais e o sangue pulsar um pouco menos

Feche os olhos confie um pouco mais naquilo que lhe trairá, estuprará e matará...

 Pois, isto, é a única coisa que você tem agora.


domingo, 31 de outubro de 2010

No way out?


...just lie with me

Apenas...

Experimente


Deixar-se morrer,
O homem moderno,
O humano finito,
O cadáver racional,
Fazer-se perecer

Fazer-se renascer,
Um ser novo,
Um eu infinito,
Seja intencional,
Deixar-se viver

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

À luz de...

Apolos & Apologias

I. Apologias que apodrecem

Golpes de línguas afiadas que cortam as faces
Desferindo & ferindo em sequências edaces
Golpes que nos rouba a paz
& tudo que eu soube dizer foram desculpas & mais desculpas

II. Vísceras que aparecem

& o asco que me toma & no interior emaranha,
Pulula & resultar em intenso golfo,
Onde ponho para fora minha entranha
Em suas minúcias & seu mofo

III. Ascos que crescem

& mesmo a cria destas entranhas fétidas me enoja
& mesmo o sepulcro dela me enoja
& mesmo o mesmo me enjoa

IV. Fins que arrefecem

Então o que aprendi a fazer é prometer
& o que promete remete a mentir outra vez
& o remendo pode não mais suportar
& a cicatriz pode não mais sarar...
...
..
.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O fim das palavras sussurradas...

Aos ouvidos do ego

E quando palavras,
Das mais sinceras revelações,
Se fazem,
Escorrendo em fuga a ouvidos confiados,
São engolidas de modo abjeto por ouvidos em que no fundo
– atrás das respostas belas; além da atenção dos olhos –
Reside o ego,
Aguardando por cada oportunidade de espelhar-se nas letras,
Por cada chance de desenhar-se nas frases
& por cada instante de refletir-se nas sensações;
Por detrás de um ouvido amigo,
Assenta-se um eu narcisista,
Um tímpano imerso em intenso egoísmo,
Sedento por si... & nada mais
Tão vazio & cheio de si
Matando tudo que lhe foge de encher seu peito,
Assim é o fim das palavras sussurradas aos ouvidos do ego.


Peso &

Ecos de palavras não ditas

Uma palavra não dita
Pode cortar mais profundamente que qualquer metal (frio) jamais irá o-fender

Uma palavra não dita
Pode fazer verter as lágrimas mais pesadas que um coração possa supor-tar

E por vezes,
Corpo algum sustenta o peso sobre as costas
&, às vezes, as marcas são tão profundas
Que tempo algum pode apagá-las,
Substância alguma pode curá-las
& sentimento algum pode, ainda, atravessar a carne
De um corpo já atônito; moribundo.

domingo, 12 de setembro de 2010

No desvio de algum rincão do universo...

Ausência & explosão de cores

E quando eu me esqueço de mim
É você quem me faz lembrar quanto é pulsante viver

E quando as pontes parecem rompidas
É sua pele que me faz ligar-me a um possível sim

Assim, vão se formando melodias.
Assim, as rimas vão para baixo e para cima.
Assim, os lábios se abrem e fecham
E o mundo expande e se distende ao infinito.

E as palavras se acabam
E os significados se refazem
E seu amor se amplia
E tudo vira fantasia

E por de trás de suas pupilas as cores cintilam,
Os desejos sibilam
E tudo mais é mero acontecimento
E tudo o mais não mais é o mesmo
Tudo novo
De novo
... Para todo sempre?
Par todo sempre?
Parto do sempre?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Suspiros de um...

Coração enforcado

Sentimentos que atravessam feito bala
Um peito aberto por uma sincera fala
Um temor que envolve as mãos
Lia os pés, atravessa a garganta & enforca o coração
Fazendo lágrimas fluírem em direção a utopias circulares
Entre a falta de sisos e pré-molares
Martelos que golpeiam os cravos de amores e rancores
Num complexo de tensões & dores
Procelas de prosas ácidas & versos violentos
Olhares corrosivos & vidas em sucessivos cruzamentos
Entre fluxos rápidos, intensos erros, incontínuos conjuntos
& Incontidos conjuros desconjuntos

Uma situação localizada
Que descentraliza as reações
Põe obra despaginada
Em uma rede de relações

E tudo o que se quer não é monotonia
Oscila, sim, duma poligamia de sensações
A um prisma de indecisões em policotomia
Uma justa nobre de errantes dos corações


domingo, 29 de agosto de 2010

Fragmentos (IV)

E quando eu penso que...

São tantas coisas para se dizer
Mas tão poucas palavras para descrever

Tantos aromas pra sentir, tantas experiências pra viver,
Tantas regras pra quebrar, tantos sentimentos pra descobrir,
Mas poucos momentos pra se viver

São tantas confusões, tantos preconceitos, tanta burocracia,
Tanta intolerância, ignorância, arrogância, ÂNCIA.
Que não sei o que fazer

São tantos “isso”, tantos “aquilo”, são tantos “não”,
São tantos “desista”, tantos “errado”, tantos “MORRA!”
São tantos "tantos"! Que no fim, eu só posso dizer:

PORRA!
Deixem me viver, só deixem me viver...



segunda-feira, 19 de julho de 2010

Num joguete noctâmbulo:

Vozes vestiginais de vontades volúveis & virgulas vibrantes

Vacância aos que se põem em constante trabalho das dubiedades
Ventura aos que se aventuram para além das duas verdades
Vigor & vitória aos que não se deixaram vencer pelos versos vendidos
Voracidade aos olharam por detrás & para o fundo dos olhos escondidos
Vultuosidade de alma nos enfrentamentos que o caminho traz!

Valentia nos braços e línguas dos que não se deixam dobrar
Veemência ao brado destes que não se deixam morrer sem amar
Virtudes & viço em cada suspiro dos que gracejam da eternidade
Volubilidade nos corpos guerreiros dos que se prostram à verossimilidade
Vulneradores sejam os golpes das espadas contra a dita paz!


sexta-feira, 16 de julho de 2010

Em rimas pobres,

O cobre arrimas


O que ata consome
O que não some mata

Fato ao paladar
Dar ao olfato

O que é não há
E há o que não é

Bebe do que escorre
E corre do que sede

A sede do viver
Em reviver a sede

O que fica não vê
O que prevê bestifica

Esquisito é o ser
Esquecer o requisito

Conversa em prosa
Prostra a inversa

Versa e também prova
Reprova e vice-versa

Não há tato para o teto
Há arquiteto para o contato

Fala-se aqui e ali
Embala-se Dali em croqui

Quem quer o que?
Veste o teste deste?
Leste este apreste?
Que queres quê?

Respiras o aroma
E Roma espirras

Exalas as várias faces
Em disfarces exilas

Medos em pequenos potes
Em lotes de arremedos

Cansativo em diálogo
Análogo para tal altivo

Num fim comum
Dum afim desjejum

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Violinos, violência & luxúria;

Som & fúria

Tome mais um copo de ódio, satisfazendo seu desejo de sangue
Enterre-se até o pescoço na suja e densa lama do mangue

Quem sabe mais um gole de medo para o seu desejo insano
Aspire o narcótico ar impuro de um mundo imundo e humano

Mais um drink de algo estranho para acalmar suas anomalias?
Quem sabe algum chá sonoro para apaziguar suas angústias

Banhe-se no desespero do desconhecimento do futuro
Embriague-se no pânico ao se ver mergulhar no escuro

Menos uma vida,
Mais uma vida,
Menos uma vida aqui,
Mais uma vida ali,
Menos uma vida ,
Só uma vida!?

Sinta a faca cortar,
Sinta a verdade morder,
Sinta o ferro marcar,
Sinta abrasa queimar,
Sinta o sangue ferver,
Sinta-se morrer!


terça-feira, 6 de julho de 2010

Aos corações cegos:

Diferente repetição – de palavras & tons

Voando contra o muro, sentindo os tijolos acertarem minha face
Voando contra o mundo, esperando que o tempo me amasse

Voando contra o espelho, batendo meu ego contra o me escarnece
Voando contra o medo, abrindo o peito à verdade que me arrefece

Abrindo as asas
Deixando a mente fluir montanha acima
Rumo ao cimo
Rumo aos sonhos que guardo no peito
Ao som do sino
No labor que chacina a certeza & a sina
Assassino das brasas
Que ergue os punhos & marca seu feito

No aborto
No vômito
No frasco
Um líquido biliar azul que escreve o irrealizado

No móvito
No golfo
No cristal
Um Eu que vive & pulsa, que ama & repulsa

sábado, 26 de junho de 2010

Parassonia:

Incubus & Succubus

Às vezes pesadelos assustam,
Às vezes pesadelos podem ser tão reais, tão presentes, tão verossimilhantes que perfuraram a pele, infiltram-se no sangue, percorrem o corpo & espalham-se por ele contaminando de medo cada célula, causando angústia profunda nos recônditos rincões d’alma, fazendo os músculos se contorcer em agonia & peito arder como se um metal frio & reluzente o crava-se, causando-lhe um dor pulsante

Às vezes os pesadelos nem se quer ocupam espaço entre as lembranças,
Às vezes um simples pesadelo pode marcar de tal forma que mil utopias não o apagam, nem sequer causam dano a sua integridade, nem sequer furtam-lhe em nada dos braços de Mnemosine
Às vezes um pesadelo pode mudar uma vida, pode ser-lhe ponto sem retorno, um nó cego, um pó que cega, um dó que nega, uma planta de medo que se rega, uma angústia que relega ao ser ad aeternum, um contorno em torno do que não deixa, não permite, apenas, demite-se a ser
Um laço lia, cinge e finge fim, um fio condutor, que fina & espessa as almas & harmonias, que delineia a face que sorri & chora, a maça que esmaga & deforma, o maço de notas que soa, e a moça que sua

E tudo aqui, talvez não passe de um pesadelo,
Talvez não passe do efeito de um pesadelo,
Talvez não passe de um talvez,
ou talvez nem seja
O que resta? Pesar o pesadelo e seu pesar?
Pensar no pensamento a se negar?
Ou negar aquilo que pesa ao pensamento?
Ou seria uma pena na mente?
Uma pena plúmbea sobre o peito, sobre a mente, sobremodo ao modo estável de ser..

terça-feira, 22 de junho de 2010

Uma homenagem:

Sobre Solidão, Folhas E O Mundo Que Não Vemos

Embaixo dos meu pés
Além do funcional
Um mundo inteiramente novo

Atrás dos olhos
Dentro do irreal
Um mundo além do ganhar e perder do jogo

Junta a você e sua solidão
Você verá no chão
Um mar de possibilidades
Novas realidades


Um novo ser, um novo ter,
Um novo ver, um novo estar,
Cantar, pular, viver, cheirar, gozar o ar!

Faísca de vida
Sob as árvores
De um mundo de desencanto

Pixel do universo
Sob olhar embriagado
Em um mundo já adoecido

Junto a você e seu conforto
Você verá no corpo

Um mar de possibilidades
Novas realidades

Um novo ser, um novo ter,
Um novo ver, um novo estar,
Cantar, pular, viver, cheirar, gozar o ar!



escrito dedicado a Carla F. Silva & Beli Lessa

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Em momentos soturnos pegunta-se:

Haverá um lugar paras utopias?

O Coração na Mão,
A Faca entre os Dentes,
O aperto no Peito
& os Versos Na mente

A Ânsia entre os Dedos
& os Olhos na Tela,
O Ar desce pesado
& A violência em Aquarela

Os Rabiscos num Papel,
As Palavras dançando no Ar
& o Vento sopra Vida
Nas Folhas a farfalhar

As Pinturas borradas,
As Imagens distorcidas,
Os Pensamentos inebriados
& as Lembranças perdidas

O Medo do Medo de não mais sentir,
O Medo de ter Certeza de não mais mentir
O Temor que treme as Bases & os Pilares
O Tremor que teme os imensos Mares

Haverá, sempre, um Lugar paras Utopias
Em cada Sonho meu, em minhas Fantasias,
Aqui, no meu Peito, aquecendo o meu Coração
Isolado numa Geleira de Razão

sexta-feira, 4 de junho de 2010

No papel puido rabicos de...

Uma figura de mim

Uma epizêuxe do meu próprio eu
nas paronomásia emersa no breu
Uma aliteração das ânsias pessoais
entre auxeses e lítotes salivais

Com pensamentos Anacolúticos
sem circunlóquios espasmódicos
nem anáforas do conhecimento padrão
Um antiácido às piroses da razão

Entre as catacreses das faculdades humanas
e o desbunde das mais profanas leneanas
nem tão vago que não possa ser definido
nem tão definido que não possa ser vago

Sobrescrito com figura de pensamento
inscrito com outra figura de construção
como o branco inseguro do jasmim
eis pós-escrito: Mais uma figura de mim.


terça-feira, 1 de junho de 2010

Nenhum traço reto, um pouco de molde e muita subjetividade...

Em Qualquer Coisa Sobre Liberdade

As vozes silenciadas dos anjos caídos
Os olhos famintos dos deuses falidos
A carne putrefata dos corpos nobres
Sobre eles, pilhas e pilhas de cobre

As vontades esvaziadas pela carne
Com estacas que perfuram no cerne
As flores que agora voltam a surgir
Esmagadas pela marcha das botas-zumbi

A bandeira é hasteada, seguida pelo hino em coro
Homenagem aos heróis coroados com louro
Novos nobres levantam-se em meio ao rebanho
Senhores transmutados, nova fé semeada, mesmo engano

Novos atores para a mesma peça
A promessa de outrora se faz escassa
As lágrimas cristalizadas novamente contornam
Os rostos pálidos, novos sonhos ali se formam

Os grilhões de ouro, agora, se tenta quebrar
Com as próprias asas o vôo se tenta alçar
Apolo está morto! Apolo está morto!
Dança-se e regozija-se sobre o corpo!

O louro é pisado, a flâmula rasgada e hino esquecido
Faz-se festa e alegria da vida e pó de todo bigorrilho
O meu valor é meu e só a mim o cabe, cá, ser
Teu valor é só teu e assim cada qual constrói um novo viver

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sem palavras à intrincada...

 Sensação no peito

Um sublime momento.
Um suave alento.
Um constante embalar de sonhos preciosos.
Migalhas de esperança que valem mais que ouro.
Diamantes em seus olhos.
& Felicidade nos meus.
& Nos nossos?
“Amor” é o que se pode ver, sem muitas cifras, sem muitos retalhos,
Porém através de um longo percurso, sem desvios, sem atalhos.
O ato!
Um eterno instante.
Um segundo bufante.
Um evento a atravessar meus pensamentos inebriados.
Coração feito em cacos, que um pouco de cola e um amor não consertaram

Um beijo.
& um abraço
& uma laço.
Liam-se.
No passado, cuidadosamente, para suscitar o presente
No presente para sempre.
Para sempre?
Para mim um sempre tão frágil, tão tênue, entretanto, mesmo assim, intenso,
Imenso, denso
& propenso a algo entre medos, receios, prazer, deleites, sorrisos, regozijos e lágrimas.
Lágrimas escondidas, ocultas, cultas, curtas,
Longas ondas de freqüência confusa, de efeito conciso
& impreciso, contudo extremamente necessário.

Onde o ponto põe um fim não se está, não se sabe.
Não há até que se o ponha, mas há, sabe-se, o fantasma que nos rodeia.
A espreita na estreita linha entre presente & futuro.
No continuo vir-a-ser, da vida, do amor, da paixão, da dor,
Da amizade, do ser que se é – da realidade!


























[14]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Embrenhado numa floresta de aço & cimento...

Em busca de uma clareira


Onde a Salvação está, eu sei que posso me perder
Um abismo, um nada-motor

Onde a Armação ergueu, eu sei que posso ruir
Um esqueleto, um exato rigor

Onde o Pensar flui, eu sei que posso forçar
Uma borda, que se desdobra

Onde a Técnica produz, eu sei que posso criar
Um novo existir, uma outra obra

A Razão no meu corpo
O desejo sem gosto
Um número no meu osso
Um mundo perfeito
Ao qual não pertenço
No qual me construo
No qual me seguro
Onde limito meu infinito

domingo, 16 de maio de 2010

O silvado

Soneto Suicida

Você sente a firmeza do seu pulso
Você sente o metal frio da arma
Você sente o peso do carma
Você sente o seu ser avulso

Você percebe o gosto amargo
Você percebe o liso cortante
Você percebe o ar cauterizante
Você percebe seu sorriso largo

Uma gota de sangue que escorre por entre os dedos
O tempo que transforma sua alma num ponto nulo no céu
Faz exalar por cada poro da derme o mais agudo dos medos

Uma gota de lágrima que seca por sobre o rosto fatigado
Exauri a significância deixando a sensação de ser-se ilhéu
Numa imensidão, sendo, pelos dentes de Cronos, mastigado


domingo, 9 de maio de 2010

O amargo efeito d’uma...

Abnegação

& os olhos aproximaram-se
& os braços se laçaram
& as auras dos lábios tocaram-se
& o vento soprou, os sinos dobraram,
Mas não se beijaram

Entre os milímetros que separou o aprazer do toque – a moral!
& o receio.
& a amizade?
& sobriedade?

Mesmo em suas sonoridades não há palavras à angustia no peito.
A dor não mais se fez,
Apenas inconformidade ao não-feito,
A revolta contra si.
Pois, outra vez mais, a moral bateu-lhe a porta,
Atendeu-a, mesmo crendo-a morta,
& deixou-a entrar,
& logo ela tomou-lhe as rédeas.

Depois, em metamorfose, restou-lhe arrependimento
& ansiedade
& amargor
& revolta,
Uma leve revolta com tons pastel,
Que riscou seu céu,
Que marcou sua memória outra vez,
Que lhe devolveu à lucidez
& borrou-lhe o ventre
& fisgou-lhe a paixão
&, então,
Deixou-lhe, estaticamente, pesado,
Sentindo-se imerso em confusão,
& erosão
& decepção
& insatisfação – pura insatisfação!














[13]

domingo, 2 de maio de 2010

Uma pequena lembrança do eu

O pássaro (que sou)

1. Prólogo em soneto.
Em que ninho nasceu o que se chama, com imensa vanidade, de Eu?

O esquecimento que se multiplica em um duplo esquecer:
Causando a ânsia que é, assim, o viver.
Cria a crença da diferença entre mito e verdade
Faz fascinantemente imperceptível a frágil realidade

Gera a sensação mais plena de escolha:
Atabafando com véus de razão quão turva é a bolha
Cuspindo verdades em imagens em alta velocidade
em deliberada, ao pensamento, ininteligibilidade

Aí, neste ninho nasceu uma pequena lembrança do eu:
Nasceu pássaro sem asas, filho da obediência
Cresceu no desconhecimento da própria potência

Aí, neste ninho nasceu uma pequena lembrança do eu:
Nasceu sem consciência de sua própria natureza
Cresceu sem conhecimento de sua inata fraqueza

2. Capítulo primeiro.
Quem é o pássaro sem asas?

Fruto de tal ninho não longe poderia explorar-se
em suas vastas possibilidades de devir
Não obstante, cada passo além era apagar-se
Movendo-se em um ciclo, a si, de revir
sem nunca poder ser outro, sem jamais poder ter mais
sem nunca poder encorajar-se a ser seu próprio Arrais
Um constante desejo, cego, de apagar-se

Fruto de uma identidade que se esgueirou
pelos lapsos e penetrou fundo n’alma
Ali medrou ao ponto de fazer parte do eu,
Fê-lo pôr-se, então, em sua palma,
visto que, este, não pode, com serenidade, arrancá-la
visto que, este, não pode mais simplesmente cortá-la
sem com isso extrair parte do próprio eu.

Ao arrebatar por completo produzira em si
a dor mais intensa que jamais sentiu,
tão mais intensa que a dor puerperal

Deste modo causando marcas tão indeléveis, ali,
que jamais ser-se-á impassível ou bravio
ser-se-á algo acolá do que é o normal

3. Capítulo segundo
O que é a profecia do nobre devir?

Tais vaticínios causam temor ao braço mais forte
Fazem mudo o brado mais retumbante
Cerra os dentes mais famintos e afiados para o corte
Rechaça o mais temerário semblante
Porém, seu resultado pode salvar o ente mais moribundo
Só este é o esforço que pode ter o alcance mais profundo

Sem deixar-se às moscas
Sem deixar-se levar pelo vento
Sem deixar-se produzir como outra das estruturas ocas
Sem deixar-se produzir como um ente frágil ao relento

Punho erguido.
Alma em brasa
Assim pede-se por asa
Assim o limite é abolido

Recusa da estabilidade
Trucidação do fixo
Assim faz-se erguer a personalidade
Assim desloca-se o antigo eixo

Elevando o poder-ser
Elevando do indefinido
Elevando-se o ente que se é para lá do ter
Elevando-se o ente ao seu potencial infinito

Atenção a que nada aqui é certo nem definido
Não se põe qualquer tipo de molde que dite o ser
Fala-se de anti-moldes sem qualquer risco pré-emitido
Tudo aqui está na multiplicidade de vir-a-ser
Que é mais belo que qualquer escultura padrão
Qualquer desenho fruto de mera reprodução

4. Capítulo último
Radiante ou Opaco? Aurora e ocaso?

Entre acidência e pulsão
Entre desejo primaveril
e o que há de mais vigoroso

Nem positivo nem negação
Nem bom nem sequer vil
Só á certeza no pontuoso

Assim sendo, não há muito que rimar
Não há muito que prever
Depende-se do real querer
Sem certeza do que, após, haverá
Nem mesmo a garantia de chegado
Não há caminho exato a seguir
Não há verdade a se anuir
Só o ato poderá apontar o errado

Assim sendo, se finda aqui
sem buscar a resposta final
sem ditar qualquer moral
Apenas um intento de mostra que há um outro de si



quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um escrito, que o mofo já consome, sobre...

O homem que não sabia amar

Amor, fruto-praga, sagaz – Mordaz
Com os que não o sabem domar! Atroz
Com os que não o sabem montar! Nós
Em ambos falhamos – Não o vê? Ele é veloz!

Não existe ser humano que saiba bebê-lo
Sem nele se embriagar
Há quem beba até cair, até não poder mais andar
Há quem o beba até que ele faça-o vomitar

Vomitar a alma, vomitar todos os desejos,
Vomitar sua personalidade e seu eu
Vomita todas as entranhas, um interno breu
Não a mais ego, não há mais Teseu

A quem a dance até que seus pés calejem
Seu corpo geme!
Suas pernas não são mais firmes
Seu coração não palpita mais uniforme

Nenhum humano sabe escapar a este encanto
Há quem tente não o beber
Para não ir à sarjeta, deprimente ser
Jamais saberá o que é o mortal-prazer

E dos que o bebem até que ele os leve
Ao mais profundo coma
Não há injeção de ódio que resolva
Ela só fará tudo ali virar malevolência

Uma explosão de fúria e ardor
Agressiva e mortal
Não há controle ela sai – Fatal!
Tu matas, tu morres – Fatal!

A maldição não está no fato de não saber amar
Mas no fato de sentir amor e não poder, jamais, controlá-lo!
– Há quem controle? Não sei,
Sou apenas um homem que não sabe laçar o cavalo

...Era uma vez um homem que não sabia amar
Seu olhar reflete-se penetrante nessas palavras
Sim ele é tu, seja tu quem tu fores, ele é tu!
Não acreditas? Conte as feridas,
Contes as despedidas!
Não há nenhuma?
Então conte, quantas vezes mataste teu espírito-livre?
Quantas vezes trancaste teu espírito-vivo?

[12]

quarta-feira, 31 de março de 2010

Eu me lembrava...

Daquela poesia

Eu me lembrava daquela poesia,
Eu me lembrava daquela pessoa,
Que me lembrava aquela poesia,
Eu me lembrava daquela frase famosa,
Eu me lembrava daquela fragrância,
Eu me lembrava daquela ignorância,
Que me lembrava aquela poesia,
Eu me lembrava, mesmo, daquela poesia,
Ah, como eu me lembrava daquela poesia!
Mas agora...
                  Agora ela não é mais que um fragmento.
                  Um ponto nulo no esquecimento.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Os íntimos...

Versos últimos

A boca te beijou
e tu a escarraste
e tu apedrejaste
a mão que te afagou

A ti a ingratidão
restou como chaga
e no peito a vaga,
última, sensação

E o cigarro não foi calor para tua alma
e o escarro voltou-se contra tua calma
e a solidão te abundou

E a lama da miséria engoliu a ti – fera,
que ama, mas teme por, assim, ser quimera -
e só o vazio ressoou

domingo, 14 de março de 2010

Caminhando...



No viver



No meio do caminho
uma árvore medrou.
Pelo aprazer que causou,
ali, fiz meu ninho

Uma árvore bela,
de frutos viçosos,
de galhos donosos,
ali, a amizade se desvela

Sem pressa de ser.
No caminho que se parou,
o vento soprou para um mundo crescer

Na contemplação.
Um devir tão vigoroso
que, de philia abundoso, cogulou o coração




[àqueles que abundam-me de alegria.
aos amigos que me são essenciais em cada dia]

quinta-feira, 11 de março de 2010

Duas perguntas e várias sensações dum...

 Prisma

Não lhe dói no peito
cada vez que você abre a porta
– do carro, da casa, do coração –
e vê um mundo cada vez mais cinza, pálido, duro e frio?

Não lhe dói não sentir
o vento soprar na face
– do livro, do mundo, na sua –
e uivar pelo devir de outra possibilidade, bela e fértil?

Pulsa e palpita na caixa torácica branca e fechada
Uma aura de medo em seu coração
Um beijo da morte, um amplexo complexo
A força-resistência escorre da sua mão

E assim segue-se flexo, anexo, fixo e conexo ao fluxo, assim segue-se amouxo no empuxo do eixo triturador, mas gravado no peito uma sensação de alegria.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Outros versos sobre...

Outra dor no peito?

Ah, a dor no meu peito que aperta o coração
e não me diz o que fazer

Ah, a dor no meu peito que agulha minha'lma
e sangra o meu ser

E tudo o que me resta é lutar contra a medusa
que reside ali

É tentar enfrentá-la com a potência que resta
no meu ser que sorri

[11]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Num impulso aforme;

Soneto disforme do amor conforme

Arrancam-se as asas do amor, pondo-o numa sequência de códigos,
Derribando seu vigor e desmantelando seus potenciais pródigos,
Encaixotando-o em frases românticas ou em impulsos elétricos,
Anulando as múltiplas formas e reduzindo-o a modelos geométricos.

Assim como se reduz o caos na ordem das palavras em que se o define,
Produz-se o definhar do sentimento pela identidade, matando-o in fine,
Em casulos de aço frio trancafiam-no sem ter por onde, a si, nutrir,
Linhas de medidas garantem o status quo e fazem o multíplice do amor falir.

Valsas de compassos precisos,
Armações duras como abrigos,
Estufas do amor uniformizado de vermelho.

Ritos e mitos travestidos em belo,
Garantias de controle do alelo,
Amor perpetuado como reflexo de espelho.


[10]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Em seus olhos lia-se:

O mundo (um incomensurável amontoado de inutilidades)

O estrépito
O decrépito
A guerra
O ruído do avião
A bomba que assobia pouco antes de abraçar o solo
Pouco antes do fragor
Pouco antes de produzir o cogumelo de ardor
Luminoso
Flamejante
Que queima o corpo
Que dilacera o semblante
Que trucida a alma
Mas o mundo é um amontoado de futilidades mesmo, de que importa?

O que não é útil não nos serve
E o que nos serve não apraz à alma
Agrada os corpos, quem sabe
Corpos modernos
De ternos
Ou mesmo de Jeans
Mas corpos modernos mesmo assim
Autômatos, sobras de humanos
Sombras de seres
Sem mais alma
Pois esta – foi trucidada pela bomba!

A bomba
Atômica?
Nuclear?
H?
I?
J, K, L, M?
Z?
Não.
Uma bomba de mediocridades
Apatias
Afasias
Sem nostalgias
O mundo é um enorme amontoado de quinquilharias
Um belo engodo à propriedade de si
Toda a exportação da potência
Cambiada por stress
Desgosto
Melancolia
E tudo isto que sinto no meu peito

Essa deve ser a origem da dor no meu peito
A ausência de amor
Amor real
Marginal
Rebelde
Rápido
Intenso
Pretenso
Sem pretender ser eterno
Apenas interno
Amor-paixão
Paixão de vida
Vida
Pulsão primaveril
Vida
Minha vida
Meu amor
Amor meu
Amor de mim
Ter a mim
Ao menos ter-me
Sem pretender ir mais longe do que posso olhar
Porém sem esperar morrer onde agora estou
Sem falecer como quem agora mal sei quem sou
Para, assim, poder me despedir
Da dor no meu peito ou deste céu azul

Goodbye blue Sky, goodbye
Soava a vitrola
Soava a vitória
Pedia-se esmola
Pedia-se por vida
Mas ela já havia fugido
Fugido de um mundo como este
Evadindo-se deste putrefato mundo
Juntamente com os deuses
Furtaram-se daqui, pois agora...
O mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Num muro dilapidado tintas luzem...

Um retrato olvidado e borrado que retrata

A velha figura do cavaleiro louco, errante,
que clama pelo fim do cavaleirismo-sem-coração;
Em uma nova estampa, sempre andante,
em que lhe escorregam urros mudos,
urros pelo fim de cavaleiros surdos
que montam o cavalo chamado: Razão

Vestem-se, tais cavaleiros combatidos,
com reluzente e fiel armadura de incomplacência,
com a qual podem erguem os títulos auferidos
de legitimidade, a chamada: Ciência.

Tremulas mãos que ousam erguer-se
contra o cavaleirismo da moderna modernidade,
que busca, a donzela, defender, esta tão – ingenuamente crida
e, com impar anediar, denominada – pura atende por nome: Verdade

Teima o hodierno cavaleiro, já tomado por insano,
em digladiar e apontar a superficialidade
da cavalaria do progresso humano
que se faz cega aos erros que lhe brotam
– seus limites que não lhe escapam,
busca e luta em vão negando e renegando-o –
sem percebem que a escapa o mais profundo
sem perceber a parcialidade

Pobre cavaleiro, excluído, desacreditado,
em seu caminhar perpétuo, vivaz
Sempre disposto ao olhar em volta, obstinado,
disposto a ser algo mais, a fugir da paz.
A fugir da segurança vil do escudo e da espada “nobre”
A ir de encontro ao fio de cobre
cortante da dúvida, sem medo, sem dívida
sem ávida crença, sem eterna lembrança

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

7 linhas sobre...

A dor no peito

A dor no peito não se encerra com o sono
O ferimento no peito não tem sequer dono
É mono.
Não é estéreo.
Não arde nos dois lados
Não morde os dois lábios
Doe apenas aqui e se finda apenas no cemitério



[9]

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Olhos concentrados focam...

O Ballet da Aranha ao som dos uivos de Zéfiro

Como que voando magicamente a aranha realiza seu ballet
Flutuando ao balanço da brisa, oscilando em sua dança
Sobe, gira e desce movimentando-se graciosamente
Ela sai da vista do observador como se encenasse,
para este, um papel de musa

Zéfiro maneja suas forças como um maestro, comanda a orquestra
e o aracnídeo firme na ponta da linha quase que imaginária
Como um trapezista, suspensa por um cabo de aço cor-de-nada
Faz piruetas e reboliços em busca de um ponto firme

E quem não o faz?
Quem nessa vida não se arrisca em busca do outro lado?
Quem não se deixa levar pelos ventos da tragédia?
– Soprai Dionísio, soprai! –
Tu não o fazes?
Por que vives então?
Preferes ser a formiga, servil, honrada, no frenesi do trabalho maçante e perene?
Por que tu o fazes?

Em troca de prazeres de mercadejo?
Em troca de sempre estar na platéia?

Prefiro eu morrer já, a isto!
Prefiro, eu, uma curta vida intensa como chama
que me faz sentir vivo a cada instante
Überzeit – vivendo além da moral
sendo vivido até o instante mais banal
do que esta “vida” estéril e de calceta
Prefiro a emoção colossal do ballet da aranha
em suas acrobacias pelos próprios desejos
Jamais – em sã consciência – carregarei a folha
que alimente o fungo que me consumirá pouco a pouco

Enquanto a mente divaga, a página se acaba
A dança chega ao fim... Mas não, isso não é o fim!
É o começo de um novo espetáculo
que se faz em cada traço!
Que se faz em cada novo bailar
Parece tecer o seu futuro – Se é que se tem um!
E a tecelã não descansa até que sua obra chegue ao fim
– Eu não descanso!
Ah, que bela obra! Ah, que bela dança!
Levanta-te e aplaude-a de pé! Palmas, palmas!
À minúscula beleza na imensidão do vazio interior
e a dançarina continua seu viver sem se importar com a platéia,
Sem ligar paras vaias e aplausos, para os clamores e desafetos.
Ela simplesmente o faz!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Em uma sala acolchoada bafejo...

Quero asas

Quero asas,
Quero sonhos,
Não mais pesadelos,
Pesadelos medonhos

Quero asas
Asas fortes para voar alto
Asas próprias
Para sumir num salto

Não há um destino aqui
Não posso mais sentir
Não posso voar
Posso mentir

Posso iludir, posso enganar
A mim e a você
Posso pensar – imaginar
Mas não posso ser

Não quero ser
Quero ter,
Quero asas para voar
Quero ir onde não posso estar

Quero isso,
E quero rápido
Quero o tudo e o nada
Quero fácil, quero ácido

Eu tenho cá para mim
Que para o tédio
Que me consome, agora
Não há remédio

Não há solução
À questão, essa tal
Indecisão, ser não ou não ser
Viver o prazer mortal

Não vejo
Seria eu cego?
Ou seria tu deus?
Eu nego, eu nego!


Sei contar,
Sei comprar
Mas quero asas já
Quero o que posso lá

O aqui me empobrece
O que me atrai
É tranqüilo dizer...
Ele trai

Você sabe, eu sei,
Ele... Ele quem?
Não se sabe o que é
Se é algo ou alguém

Não há vestígios
D’onde vem
O que quer
Se para lá ou vai aquém

Preciso das asas
Preciso de ti – Cá!
Quem és tu?
Meu português não sabe conjugar

Vestígios fugazes, errantes
Guerreiros cantantes
Entendes tu?
Então estaria meu corpo nu?

Ah, deixem me voar
Deixem-me ao léu
Quero um sonho sublime
Deitem-me no véu

Do desprazer ou do ser
Do fazer ou do abismo
Não importa para que
Quero o sentimento, o cinismo

O intenso
O vil, o puro, o podre
O forte
O áspero, o frio, o nobre

Quero-te
Quero asas, quero-as em mim
Quero sim, assim,
Enfim, triste fim

Triste caminho
Conforto ao ninho
Sou uma ave estranha
Infecto nas entranhas

Não consigo
Tirar os pés do chão
O consolo me contrai
O eterno me é vão

Tudo em si
É vazio e trêmulo
Embaçado, nebuloso
Nada se desvela no embolo

O apego logo cativa-se
Por qualquer olhar manso
Deito em colo estranho
Em busca dum simples descanso

Eu vou,
Isso vem, eles vêem
Quem liga, quem importa
Quem nada tem?

Não, não, não
O que? Assim então
Eu faço, você revida
Assim então é a vida?

Ah, impaciência de subir
Impotência
Ânsia de fugir
Intolerância, relutância, dureza

Fraco e frágil
Mais um passo
Um novo traço
No estágio, lasso

Esbarro, escarro o barro – Um sarro!
O jarro, varro e narro – Um sarro! ¬
O Escarro, no jarro de barro ao forro

Eu morro e não vôo, não sôo, não suo
Não sou o sol, o céu, Ah o mel
Do beijo!

Quero voar com asas pra lá, pra aqui, pra acolá
Não sei a rima, não sei o passo, não sei o caso, o amasso
Eu faço e faço, por traço
Quero asas
Pro sonho, o sonho de estar
O sonho de cantar
O gorjear do regozijo
Aflijo a mim e “amém!” dizem eles

Quero asas
Para sobrepujar
O pesadelo de ficar,
É este ensejo para atar
O louco que me torno
Por mais querer
E quanto pior me conformo
Mais sinto os cordões apertarem mais meus braços que agora se laçam em minhas costas, mas ainda assim, de joelhos, quero asas!
– Asas para voar!


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Que o verso enfoque...

O aprazer do toque

Posso eu tocar teus lábios mais uma vez,
Acariciá-los e sentir o veludo de suas curvas,
Contorná-los com minha língua, e tua altivez
Amimar junto com tuas volúpias e deixá-las parvas?

Posso ser eu quando, aos teus desejos, transijo
Mergulhando-te em deleite, ao êxtase, elevando-te
Pungindo teus sentidos a levar-te ao regozijo
De modo que o anelo pelo repetir, do teu peito, brote?

Perscruto-te suspirado, o que não te apraz?
Desvelo as ninfas que ocultas dos olhares fugazes
Desperto em ti outros anseios, que só o toque traz
Consegues resistir ao insurgir dos sentimentos vorazes?

Desfaleces ao tanger das carnes, voyer
A todo o prazer que circula em tuas veias ardentes?
Ouvirei ressoante de tua boca “rendre son tablier”
Por, relutante, não mais suportares os gozos torrentes?


[8]

domingo, 3 de janeiro de 2010

Em palavras vomitadas...

A Arte do Contra

Não quero a arte bela nem pura
Quero a arte má, a arte escura
A arte que espinha, que dedura
A Anti-buguesa, Anti-ditadura
A arte que assusta, ataca e fura
Essa é a arte da contracultura

Aquilo que desperta nojo nas pessoas
É o que me atrai.
Naquelas coisas rejeitadas, renegadas
É que eu vejo rima.
Naquilo que o todo mais quer esconder
É o que eu vejo a grima.
Aquilo que vem e não há como conter
O que trai! O que trai!

Não quero compor um verso reto
Nem poemas feitos de concreto
Sem o sentimento como mero objeto
Fazendo emergir o que há de abjeto
Pondo o que há de repulsivo ereto
Cutucando fundo o que parece quieto

Aquilo que é pejo às pessoas
É o que me atrai.
Às deusas do Olímpio banidas
É que eu faço rima.
Naquilo que a todos mais provoca opróbrio
É o que eu vejo a grima.
Aquilo que vem proibido ao sóbrio
O que trai! O que trai!