segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sem palavras à intrincada...

 Sensação no peito

Um sublime momento.
Um suave alento.
Um constante embalar de sonhos preciosos.
Migalhas de esperança que valem mais que ouro.
Diamantes em seus olhos.
& Felicidade nos meus.
& Nos nossos?
“Amor” é o que se pode ver, sem muitas cifras, sem muitos retalhos,
Porém através de um longo percurso, sem desvios, sem atalhos.
O ato!
Um eterno instante.
Um segundo bufante.
Um evento a atravessar meus pensamentos inebriados.
Coração feito em cacos, que um pouco de cola e um amor não consertaram

Um beijo.
& um abraço
& uma laço.
Liam-se.
No passado, cuidadosamente, para suscitar o presente
No presente para sempre.
Para sempre?
Para mim um sempre tão frágil, tão tênue, entretanto, mesmo assim, intenso,
Imenso, denso
& propenso a algo entre medos, receios, prazer, deleites, sorrisos, regozijos e lágrimas.
Lágrimas escondidas, ocultas, cultas, curtas,
Longas ondas de freqüência confusa, de efeito conciso
& impreciso, contudo extremamente necessário.

Onde o ponto põe um fim não se está, não se sabe.
Não há até que se o ponha, mas há, sabe-se, o fantasma que nos rodeia.
A espreita na estreita linha entre presente & futuro.
No continuo vir-a-ser, da vida, do amor, da paixão, da dor,
Da amizade, do ser que se é – da realidade!


























[14]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Embrenhado numa floresta de aço & cimento...

Em busca de uma clareira


Onde a Salvação está, eu sei que posso me perder
Um abismo, um nada-motor

Onde a Armação ergueu, eu sei que posso ruir
Um esqueleto, um exato rigor

Onde o Pensar flui, eu sei que posso forçar
Uma borda, que se desdobra

Onde a Técnica produz, eu sei que posso criar
Um novo existir, uma outra obra

A Razão no meu corpo
O desejo sem gosto
Um número no meu osso
Um mundo perfeito
Ao qual não pertenço
No qual me construo
No qual me seguro
Onde limito meu infinito

domingo, 16 de maio de 2010

O silvado

Soneto Suicida

Você sente a firmeza do seu pulso
Você sente o metal frio da arma
Você sente o peso do carma
Você sente o seu ser avulso

Você percebe o gosto amargo
Você percebe o liso cortante
Você percebe o ar cauterizante
Você percebe seu sorriso largo

Uma gota de sangue que escorre por entre os dedos
O tempo que transforma sua alma num ponto nulo no céu
Faz exalar por cada poro da derme o mais agudo dos medos

Uma gota de lágrima que seca por sobre o rosto fatigado
Exauri a significância deixando a sensação de ser-se ilhéu
Numa imensidão, sendo, pelos dentes de Cronos, mastigado


domingo, 9 de maio de 2010

O amargo efeito d’uma...

Abnegação

& os olhos aproximaram-se
& os braços se laçaram
& as auras dos lábios tocaram-se
& o vento soprou, os sinos dobraram,
Mas não se beijaram

Entre os milímetros que separou o aprazer do toque – a moral!
& o receio.
& a amizade?
& sobriedade?

Mesmo em suas sonoridades não há palavras à angustia no peito.
A dor não mais se fez,
Apenas inconformidade ao não-feito,
A revolta contra si.
Pois, outra vez mais, a moral bateu-lhe a porta,
Atendeu-a, mesmo crendo-a morta,
& deixou-a entrar,
& logo ela tomou-lhe as rédeas.

Depois, em metamorfose, restou-lhe arrependimento
& ansiedade
& amargor
& revolta,
Uma leve revolta com tons pastel,
Que riscou seu céu,
Que marcou sua memória outra vez,
Que lhe devolveu à lucidez
& borrou-lhe o ventre
& fisgou-lhe a paixão
&, então,
Deixou-lhe, estaticamente, pesado,
Sentindo-se imerso em confusão,
& erosão
& decepção
& insatisfação – pura insatisfação!














[13]

domingo, 2 de maio de 2010

Uma pequena lembrança do eu

O pássaro (que sou)

1. Prólogo em soneto.
Em que ninho nasceu o que se chama, com imensa vanidade, de Eu?

O esquecimento que se multiplica em um duplo esquecer:
Causando a ânsia que é, assim, o viver.
Cria a crença da diferença entre mito e verdade
Faz fascinantemente imperceptível a frágil realidade

Gera a sensação mais plena de escolha:
Atabafando com véus de razão quão turva é a bolha
Cuspindo verdades em imagens em alta velocidade
em deliberada, ao pensamento, ininteligibilidade

Aí, neste ninho nasceu uma pequena lembrança do eu:
Nasceu pássaro sem asas, filho da obediência
Cresceu no desconhecimento da própria potência

Aí, neste ninho nasceu uma pequena lembrança do eu:
Nasceu sem consciência de sua própria natureza
Cresceu sem conhecimento de sua inata fraqueza

2. Capítulo primeiro.
Quem é o pássaro sem asas?

Fruto de tal ninho não longe poderia explorar-se
em suas vastas possibilidades de devir
Não obstante, cada passo além era apagar-se
Movendo-se em um ciclo, a si, de revir
sem nunca poder ser outro, sem jamais poder ter mais
sem nunca poder encorajar-se a ser seu próprio Arrais
Um constante desejo, cego, de apagar-se

Fruto de uma identidade que se esgueirou
pelos lapsos e penetrou fundo n’alma
Ali medrou ao ponto de fazer parte do eu,
Fê-lo pôr-se, então, em sua palma,
visto que, este, não pode, com serenidade, arrancá-la
visto que, este, não pode mais simplesmente cortá-la
sem com isso extrair parte do próprio eu.

Ao arrebatar por completo produzira em si
a dor mais intensa que jamais sentiu,
tão mais intensa que a dor puerperal

Deste modo causando marcas tão indeléveis, ali,
que jamais ser-se-á impassível ou bravio
ser-se-á algo acolá do que é o normal

3. Capítulo segundo
O que é a profecia do nobre devir?

Tais vaticínios causam temor ao braço mais forte
Fazem mudo o brado mais retumbante
Cerra os dentes mais famintos e afiados para o corte
Rechaça o mais temerário semblante
Porém, seu resultado pode salvar o ente mais moribundo
Só este é o esforço que pode ter o alcance mais profundo

Sem deixar-se às moscas
Sem deixar-se levar pelo vento
Sem deixar-se produzir como outra das estruturas ocas
Sem deixar-se produzir como um ente frágil ao relento

Punho erguido.
Alma em brasa
Assim pede-se por asa
Assim o limite é abolido

Recusa da estabilidade
Trucidação do fixo
Assim faz-se erguer a personalidade
Assim desloca-se o antigo eixo

Elevando o poder-ser
Elevando do indefinido
Elevando-se o ente que se é para lá do ter
Elevando-se o ente ao seu potencial infinito

Atenção a que nada aqui é certo nem definido
Não se põe qualquer tipo de molde que dite o ser
Fala-se de anti-moldes sem qualquer risco pré-emitido
Tudo aqui está na multiplicidade de vir-a-ser
Que é mais belo que qualquer escultura padrão
Qualquer desenho fruto de mera reprodução

4. Capítulo último
Radiante ou Opaco? Aurora e ocaso?

Entre acidência e pulsão
Entre desejo primaveril
e o que há de mais vigoroso

Nem positivo nem negação
Nem bom nem sequer vil
Só á certeza no pontuoso

Assim sendo, não há muito que rimar
Não há muito que prever
Depende-se do real querer
Sem certeza do que, após, haverá
Nem mesmo a garantia de chegado
Não há caminho exato a seguir
Não há verdade a se anuir
Só o ato poderá apontar o errado

Assim sendo, se finda aqui
sem buscar a resposta final
sem ditar qualquer moral
Apenas um intento de mostra que há um outro de si