sábado, 11 de dezembro de 2010

Coisas que a noite sussura ao ouvido de quem não dorme sorrindo:




COISAS QUE A NOITE SUSSURA AO OUVIDO DE QUEM NÃO DORME SORRINDO
ou
MINHA MISÉRIA

PRÓLOGO DA MORTE À MINHA MISÉRIA

Eu havia sido chamada.
Mas não fora um chamado qualquer
Um chamado que vinha do cerne.

Uma angustia calada
Ao seu lado, então, pus-me de pé.
Tocando de leve sua carne

Eu tinha muita paciência.
Sabia que me chamara com toda a sua força.
Sabia que era chagado o tempo do seu fim.

Sabia de sua ciência
Eu senti que sua alma agora era frágil como fina louça.
Sabia que nela sua alma seria tomada por mim.

Ali, então, apenas aguardei.

Em meu colo tomei seu corpo e acariciei-o pela primeira e última vez.
Eu sentia a dor e a certeza no que fez.
E com a calma de quem por mim uma vida inteira esperou.
Em seus braços a noite se deitou.
E então o sol jamais voltou a ousar perturbar tal sono.

Assim, termina o prólogo da Morte
À alguém que ao menos do seu próprio fim, foi dono. 
.

I. DA MISÉRIA APÁTICA E DA APATIA MISERÁVEL

Cada coração, que batia sem pulsar, que doía sem sentir, produzia apatia dentro dos corpos que o carregavam. O oxigênio que fluía em meu sangue era carregado de apatia. Apatia que era expelida ao expirar. Apatia que vazava aos poros, que se liberava na transpiração. Cada um era uma fonte inesgotável de apatia que carregava o ar ao redor. Assim, o ar era pura apatia. E um ciclo vicioso sem fim aparente mantinha a apatia em um crescendo à autodestruição, à insustentabilidade de qualquer Único no corpo social, de qualquer câncer no interior deste corpo moribundo.

II. DA MISÉRIA DAS SENSAÇÕES

E esse mesmo coração que um dia sabia-se como uma célula revolucionária ou não passava de um bolo de carne, um metrônomo a marcar o compasso do meu fim. Um bolo de carne incapaz de criar, de produzir qualquer coisa inominável. A inefabilidade tornou-se utopia dentro da pequena cadeia de sensações possíveis, então, ao meu corpo. Tudo o que corria pelo meu corpo já havia sido capturado, localizado, nominado, identificado, já tinha seu limites tão bem definidos que eu já sabia interpretá-los do começou ao fim, cada vírgula do texto, cada pausa, cada acentuação, cada nota a ser cantada já estava memorizada em minhas células, bastava deixar fluir, não havia mais o que pensar. A consciência era só uma repetição re-ordenada de um passado bem memorável e enfadonho.

III. DA MISÉRIA DE COMO SE VIVE

O chão e o céu formavam uma unidade, partes que completavam a estrutura de uma prisão. Uma prisão sem muros, uma prisão na qual eu mesmo mantinha-me em cárcere. Uma prisão que eu mantinha como forma de atestar a miséria. A miséria de vida que eu levava. A miserabilidade com que eu conduzia minha vida. Mantendo-me numa espécie de sado-masoquismo, onde a mediocridade era o prazer máximo que eu podia sentir e manter tudo ao meu redor neste estado de sub-existência e inanição fatal era tudo o que eu queria fazer. A miserável condição com que vivia era minha miséria mais essência, era a miséria mais incrustada em mim.

IV. DA MISÉRIA DE UM FIM

E por fim, sentei onde tantas vezes foi-me um lugar de contemplação. Contemplação de mim e do mundo ao meu redor. Foi ali que pensei que dar um tiro na cabeça seria tão covarde quanto ler um bom livro ou tomar uma xícara de café forte.
Dentre tantas xícaras de café que já tinha bebido em minha vida, dentre tantas noites sem dormir lendo livros para manter-me em algum estado de transe para evitar ver tudo isto que me cercava. Decidi experimentar o calor metálico de uma bala explodir meu cérebro, atravessando-o e rompendo meu crânio.


E foi assim que pus fim a minha “vida”.

V. DA MINHA MAIOR MISÉRIA

Dentre todas as misérias que assolavam minha alma e que geravam as angustias que solapavam meu túmulo. Uma miséria era a maior de todas:

Minha maior miséria não era não ter o que comer, ou não ter onde dormir. Era conseguir comer e dormir, quando havia tantos que viviam na miséria de não ter o que comer ou onde dormir.