quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Era uma vez...

Um homem que quis ler

Um belo dia.
Assim começam-se as histórias, não?
As histórias de finais felizes e sorrisos escrachados.
Mas, assim, não é essa história.
Sem heróis, sem glórias.
Talvez esse fosse um belo dia, quem sabe?
O homem que recém acabara de tomar café, em seu fim de semana que recém iniciara-se, assim esperou.
Abriu seu livro de contos para ler algumas páginas de contos sobre fome e artistas, também, sobre colônias penais e outros assuntos – esplêndidos?
Era contente que ele lia seu livro, ao menos tentou fazê-lo, mas, talvez, por sua idade, a concentração já estava afetada.
Cada palavra lida era quebrada impedindo formar-se uma frase coesa.
Quebrada por um ruído vindo da sala ao lado.
Levantou-se calmamente, foi até lá, observou seu filho assistindo TV um desenho educativo do tipo que ensina a ser naturalmente violento, do tipo que produz gozo intrínseco do homem pela dor alheia.
Os estampido e estalos eram constantes e impossíveis de serem ignorados.
Mudou-se, homem e seu livro, para o seu quarto.
Deitou-se na cama estendeu as pernas, espreguiçou-se – a cama o chamava!
Abriu o livro, começou a correr os olhos.
Até que uma voz estridente adentrou-lhe os ouvidos atravessando- lhos, como uma agulha o faz no tecido.
Não só os ouvidos foram cortados pela voz, mas a leitura também.
Nem mesmo trazendo o livro muito próximo de si e fitando-o firmemente – nada de frases inteligíveis!
Outra vez moveu-se ao quarto da filha, mas logo ao abrir a porta lá estava ela com a TV ligada num show, ultra-produzido, com luzes, telões e sons – muitos sons, diga-se de passagem!
Sons ensurdecedores, que o fizeram recuar.
Uma cantora, com uma voz – aquela voz!
Agudos desafinadamente intangíveis, batidas sonoras pareciam estar dentro de sua mente, a cada batida da percussão pareciam serem seus tímpanos atingidos pelas baquetas.
Fechou a porta, assustado, tremendo.
Pensou.
“E agora José?”
Foi até o banheiro.
Lá sim, dois prazeres de uma só vez.
Longe dos ruídos, estrondos, baques e atabaques por aí.
Arriou as calças, sentou-se e – a TV da sala parecia ter sido posta dentro do banheiro, ou então era uma maldição – só poderia ser!
Perseguição!
O Deus que ele nem sabia por que cria lhe odeia, devia ser!
Moveu-se para o único lugar seguro na face da Terra agora – O jardim.
Abriu a cadeira de praia de alumínio – Muito leve e nem enferruja, como na propaganda dizia!
Sentou-se, abriu o livro outra vez mais e como um enxame o som das Televisões das casas circunvizinhas somaram-se e invadiram-lhe a cabeça, a vibração correu-lhe peito abaixo até a ponta dos pés – sentiu cócegas em seu dedinho.
Aquilo não era mais o Jardim secreto!
Não mais restava saída – o que fazer?
“E agora José, e agora você?
Por que a luz não acabou, por quê?
Por que esse povo não se foi?”
O quão duro seria esse homem?
Protestaria?
Dançaria valsa ou gemeria?
Nada disso foi-lhe realmente uma opção.
Sentou-se na grama, pensou o que os zumbidos deixaram-lhe pensar.
Levantou-se e foi até o bar.
Beber uma cerveja?
Comprar um cigarro?
Jogar conversa fora?
Contar piada ou tirar sarro?
Perguntar-se-ia você.
Não.
Não!
Sentou-se numa das mesas, junto dos amigos.
Sentou-se para assistir futebol – na TV.


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