segunda-feira, 30 de abril de 2012

Poderia ser uma prosa...


Versos momentâneos

Um momento ao vento,
Um evento lento,
Mas letal.

Desce a garganta – dilacera –,
Corre nas vísceras
& Faz animal.

Palpita o peito
Feito ponta de faca
Que, afiada na língua,
Mata, mata, mata!

& assim terminaria
O que ser uma prosa poderia,
Tanto da vida dum "peão"
Quanto de qualquer outro cidadão,
Até mesmo dum "dr. da academia".


Um momento ao vento:


Evento Limítrofe

No limite: segurança,
e-feita(o) de medo
No limite: semelhança,
e-feita(o) do mesmo

Numa noite vazia
Embebido em afasia,
Seguro-me no parapeito,
Com ardor no peito,
Pesando o sunto
Eu pergunto
Se haveria outro alento
Que largar-me
& lançar-me,
Ao vento...

Uma monotal canção:


Olhos de cão

A veracidade
Ao ver da cidade
É mais colorida que se crê.
Mas de que adianta mil cores,
Quando com olhos de cão se vê?


Alguns versos sobre...


Nós da cidade

Uma quarta dimensão ou uma dimensão incomensurável,
A da alma que desliza com um sentimento inominável
Sobre um plano liso: sem planos & sem projetos.
Como dança dos mortos, como intensidades de trajetos
Torce a cidade – a necessidade do concreto –
Para viajar, curvar & dobrar aquilo que é reto:
Nós!


Sobre os muros:


Danças & impuros

Imperfeitas dissimetrias
De luzes, sombras & linhas.
Feito estrias
Riscam-lhe as espinhas,
Cortam-lhe as pernas,
Feito arte moderna...
Feito desastre moderno,
Feito bolha de sabão,
Sem perceber o inverno
Mantém-se um eterno verão,
Pois ninguém verá
Dançarmos no Sabbath.
"...être bleu..."

Nada muito novo para quem vive no escuro:



Os muros

Os muros...
Tão mais duros
Quanto mais insensíveis
Tão mais intransponíveis
Quanto mais invisíveis
Tão mais sem furos
Seriam esses muros?




Entre paredes & parenteses:


Lamentos
ou Dois cantos

Canto I

Ai de mim, ai de mim!
O que pensei me liberar
Agora me faz presa.
& preso a essa terra
Imensa é a pobreza
De perpetuar essa guerra,
Imensa é a proeza
De sobreviver assim.
Ai de mim, ai de mim!
Ai triste sem fim,
Ai de mim!

Canto II

Por que insisto?
Por que não digo
Até logo mais?
Que armadilha criei a mim
Ai de mim, ai de mim!
Meu belo encanto
Encurralou-me num canto
Donde não saio mais
Ai de mim, ai de mim!
Por que insisto em viver assim?

quinta-feira, 26 de abril de 2012

L'expérimentation: Avec moi...


Pourquoi

Por que procrastinar o começo?
Por que prolongar o fim?
Se o meio é inevitável berço
Duma velocidade sem fim?



L'expérimentation:


Pourquoi 2

Pourquoi
Mourais tu,
Solitude,
Avec moi?

Pourquoi
Meurt tou(t),
Solitude,
Avec moi?


terça-feira, 17 de abril de 2012

Difíceis peripécias dum...


Coração nômade

Ah, como é difícil
Abandonar todo um edifício
Construído tão sozinho!

Ah, como é dolorido
Apagar todo um colorido
Para pintar outro caminho!

Ah, como é duro
Arrancar no sólido escuro
As raízes do azevinho!

Ah, amor que não quer deixar
A deixa, que não quer chegar,
Deixa ir esse canarinho!

Pois, coração nômade não faz ninho...


Sou escombro e ruína...



Da Verdade Clandestina


E aquelas palavras não eram palavras quaisquer,
Não eram para qualquer pessoa,
Não eram calmaria, feito lagoa.
Eram como um mar:
Batendo contras pedras, fazendo se arrebentar
Tudo aquilo que seguro e firme estiver,
E assim pretender ficar.
Como um lobo selvagem,
Como um ladrão na surdina,
Não por falta de coragem,
Mas por ser uma verdade, uma Verdade Clandestina...


Quase um romance russo:


O tanso

"Me lanço
Ou descanso?"
De perguntar não me canso,
Mas manso,
Aquieto o ranço
E aquento o pianço
De quem morrerá tanso.


Banhando no lodo do...


O engodo

Cri-me fora desse lugar,
Mas esse lugar jamais havia me abandonado.
Diferente do que se pode pensar,
Um treino desses dificilmente sairá do seu lado.

E as portas que vi(vi)
Eram mais de entrada que de saída.
Fui entrando e me esqueci
De como são as coisas, de como é a vida...



Assino a sina:


Morrer todo dia

Viver me mata,
Mata, também, a rotina,
Mata a ingrata
Repetição da sina:
Morrer todo dia


terça-feira, 3 de abril de 2012

Um manifesto

Da poesia-transgressão (à poesia-cortesã)


O que outrora foi faca no coração do rei,
Foi flecha no joelho dum cavaleiro,
Hoje é signo de doutos, legem Dei,
Linhas de cristalização do náufrago veleiro...

O que outrora foi espada de lâmina afiada
Foi aríete como máquina de irrupção,
Hoje ara a terra, enseja a fixa morada.
Dessa feita, onde está a poesia-transgressão?

"No casamento, o Didi
teve lua-de-fel:
A noiva era um travesti
tipo gilete, e cruel!"

"Foi o ancião pedir milagra
ao Bispo de Iguaçu.
Chegou lá de pica mole,
voltou com tesão no cu..."

"Meu cu tem tanto cabelo
que até parece papoula.
Por mias que evite fazê-lo,
suja de merda a ceroula."

Não se trata do cenário escatológico
Nem sequer da palavra chula,
Mas do perigo ontológico,
Do incômodo ético que a trova inocula

A verdade a ver navios
Jamais verá outra vez
Os portos & os rios
Com certeza com que fez

Enquanto carregou consigo
Todo peso do dever
Jamais poderia sair do umbigo
& lançar-se à louca lucidez

Assim,
Sem propriamente um caminho
Falo a mim:
Como guiar esse redemoinho,
Sem por ele ser tragado
Sem ter que dançar de braços abertos,
Corpo nu & olhos fechados?



segunda-feira, 2 de abril de 2012

Na calada noite, eu sussurro...

Meu monologo sem pé

A luz me irrita.
A sombra me irrita.
O barulho me irrita.
A rua me irrita.
Assim como a calçada
E toda a roupa passada.

Irrito-me a esmo.

Irrita-me o carro.
Irrita-me o barro.
Irritam-me as pessoas,
"más" ou "boas".
Irrita-me o prédio.
Irrita-me o tédio.

Assim, irritando a mim mesmo
Sigo feliz crendo na salvação,
Ou então
Em um dia acostumar-me à irritação.