quarta-feira, 22 de maio de 2013

Emana da vida


Versos de Domingo

A vida é esse entrelaçado de cousas
Na qual o teu medo é parceiro da tua coragem,
O amor é da tua alegria e da tua dor a ancoragem,
A sorte é essa agnose em que tu pousas


Repetição:


 Apologia Estética

Nem o mais voluptuoso
Hedonista poderia lhe imaginar
Nem o mais espirituoso
Estoico poderia lhe renegar
Oh, anjo do mar!
Oh, beleza sem par!


Exegética


Apologética

Descrever-te é profanação,
É corromper a perfeição
Que lhe compõe o ser

Legar-te palavra alguma
É encobrir em bruma
Teu resplandecer


Arte de poeta:


Palavrar

No mundo cada palavra
Que se lança
É vultuosa profanação.
A do poeta, que lavra,
É a que dança
E faz das tripas coração


Longa falta


Leve toque

Tocar-lhe os poros
Era roçar o véu
Tocar-lhe os olhos
Era alçar ao céu
Tocar-lhe os lábios
Era provar o mel
Não lhe tocar
Era beber o fel


Músicas de João de Barro - #2


Como o Sábio Cantarola

Um puro sangue puxando carroça
Jamais!
Negai!
Pois é assim que a alma se destroça


Versículos:

Alma Pisciana

Oh, água bela
Não se congela,
Seja um fio
Translúcido: Rio


Na madruga:


O velho

Longe e largo
Após um denso trago
Dum velho cigarro
Eu escarro
E escarneço
A mim mesmo
Pela minha sorte,
E me abasteço
E me arregaço
Com a minha morte


Aqui e cá:


    #1

Eis me aqui
Deitado sobre a cama
Onde ninguém ama
Senão a si

    #2

Eis me cá
Prostrado nessa vida
Onde a carcaça vencida
Fria quedará

    #3

Eis me aqui
Sentado num sofá
Largado ao deus dará
Por quem sorri

    #4

Eis me cá
Prostrado pelo orgulho
Que feito pedregulho
Pesar-me-á







De seda e aço


Versos Idiotas de um Palhaço

Meu clown é a poesia:
Pão meu de cada dia
Que não me esvazia
O peito da melancolia,
Mas a torna garbosa alegria
Que da palavra que enfastia
Faz o que de belo havia
Verter com farta euforia,
Desviando a nodosa romaria
Em que viver quedaria
Pela densa crença pia
Não fosse aquele que cria...

Encontro #2


O monstro em mim

Devore-me e
Eu lhe decifro
Regurgito
E sinto você
Sair feito aborto
Que, meio torto,
Há de voltar e voltar
E voltar
Até eu lhe beijar
A face e dizer:
Eu sou, também, você



Encontro #1

O monstro em mim

Oh, monstro em mim
Por que nesta álgida madrugada
Dos ânimos cálidos, por fim
Surgisse-me do nada
Como quem tudo quer refregar
Sem muito se importar?
Irrompesse-me a derme
Como quem a muito dorme
Esperando pelo momento
De transbordar sentimento,
Tornando-me o lixo
Que sempre temi me tornar
Fazendo-me um bicho
Que em violência devorará
O que de mais belo há,
E tanto desejo amar.



sexta-feira, 17 de maio de 2013

Músicas de João de Barro - #1


Quinto ou sexto canto

Quem sabe o amanhã?
O quanto ele pode lhe importar?
Não seria coisa vã
Sobre ele depositar
Esperanças, pois não vê
Quão escasso ele é de você?

– João de Barro


Um quadro


Paisagem

Seu coração,
Imerso em decepção
Quedou tão álgido, que nele
O inverno se encasacava
Para proteger a pele
Do forte frio que feito faca lha cortava.


Testamento


Soneto da última noite

A última noite,
A mesma cama
No corpo o açoite
Marca quem ama,
Deseja e se derrama,
Diz: Boa noite!

A última noite,
O último alento,
O fim do rebento
Dum amor sangrento
Que no pernoite
Diz: Boa noite!

O último beijo com calor animal
O último olhar com ares de final



Ela:


Ela

Aquecida pela lembrança
Abraçada pelo amor
Curada pelas alegrias
Ela pôde morrer em paz


quinta-feira, 16 de maio de 2013

À vida acena...


Ladra de cena

A ladra de cena
Fez a dor valer à pena
Fez o encanto
Enxugar o pranto

A ladra de cena
Furtou a vida amena
Fez os dias reluzentes
Clarearem olhos dormentes
Que, cerrados pela mente,
Não sabiam mais sorrir,
Não podiam senão mentir,
Para sobreviver
– O peito a doer

A ladra de cena
Atende à rima:


domingo, 12 de maio de 2013

Vibrato passionato


Corpo Vibrátil

Eu não quero competir
Mas não dá para assistir parado
Vibro na intensidade
De um corpo apaixonado


Negra


Esquife

Olhar e não sentir,
Desafio que só cabe
Aos que dormem
Em esquifes




Semântica de um dia



Não-silêncio Conjugado

Eu - devia ter silenciado
Tu - devias ter silenciado
Ela - devia ter silenciado
Nós - deveríamos ter silenciado
A voz - devia ter silenciado
Eles - não deviam ter falado


Uma Divina Comédia Demasiada Humana


A menos de 6 metros do inferno

Descendo degrau por degrau
Embarco numa nau
De pura sentença
Libidinagem, demência
e vontade na qual não
Participo, fico na imaginação
- inferno!


Vãs lamúrias


Devaneios de um tolo

Tenho de te dizer: invejo-te.
Não por quem és ou pelo que fazes,
Não por teus vícios ou tuas virtudes,
Mas por conseguires
Causar a um coração o que
Nenhuma poesia minha há de fazer.
Tocaste-o dum jeito com um
Simples olhar que em sonho algum
Hei de tornar mais que sensação rasa.
Tu fizeste queimar fogo
Onde não fui mais que brasa.


Lamúrias dum marinheiro


Canto à Sereia

Oh, Deuses!
Já não fosse suficiente
A insanidade do amor
Tinha de me apaixonar

Oh, Deuses!
Já não fosse imanente
A beleza de viver o ardor
Tinha de me apaixonar

Será que devo os olhos furar-me
Será que devo a ela cegar-me
Ou a doçura da voz já é suficiente
Para seduzir a mim, transeunte

Qual haverá de ser o Destino
Daquele que prova do desatino?






Paredes da vida


Mancha

Um floco de caos
De beleza fractal
Beija-me a alma
Como um sorriso sem calma
Perdido na cidade.
Um momento, intensidade,
De mim: obra de arte
Dias e dias como mancha a parte,
Meses e meses, ano após ano:
Apenas mancha amarela
Numa parede cinza
No meu peito uma querela.




Poema de soltícios


Doces vícios

Livros e amigos
Meus vícios que batem à porta.
De uns muitos me valem
De outros a raridade me importa.


Ao passado:


Poema Nadista

Só quem crê possuir
Pode perder
E de saudades morrer

Só quem acredita ter
Possui a perda
E morre da falta


Nova paragem...


Viagem

Preciso me dar tchau,
Ir-me de mim a Passárgada.
Onde não há inveja amarga da
Gente que afunde minha nau.



quarta-feira, 8 de maio de 2013

À beira d'algo:


À beira-mar

Beijo salgado
Para temperar o amor
A quem a dor
Deixou legado
O aprendizado
Do ardor


Per amare:


Principessa Del Mare


Leva onda, leva
Esse ser que
Num momento tão
Amargo da vida
– adoçou-me os lábios
Com a ternura dum tufão

Leva onda, leva
Essa dor que
No momento falou:
Aprende a amar de novo
– amar a vida
Como a vida o amou

Com amor:


A folha e a flor

A folha
Como máscara da terra
Que aos olhos interna

A flor
Como fantasia da guerra
Da vida que não cerra

A folha e a flor
Que adornam teus cabelos
Feito dríade, frente aos espelhos
D’água, a se banhar no calor


Ex-peri-mental:


Pós-poética existencial

2 meios
             Mas de um jeito:
                                       – O jeito é deixar
                     Do modo como está
                                                    Para modelar