sábado, 30 de abril de 2016

Palavra presidiária

Na garganta

engulo
seco,
frio,
e denso.
palavras não ditas,
palavras não ouvidas,
o telefone mudo,
a boca muda,
o silêncio na linha.
engulo
seco,
frio,
denso,
e duro.
as palavras raspam na garganta,
carregam consigo sentimentos
de volta ao estômago;
não saem
ficam.
fica
ali, guardado
um prazer,
uma dor,
uma alegria,
uma tristeza,
um cochicho,
um grito,
um silêncio,
um estrondo
e um sem nome.
engulo
seco,
frio,
denso,
duro,
e pesado.
cai num golpe surdo
tranco tudo;
escapa só um gemido,
escorre só uma lágrima.









Outros versos...

Maríntimos

II

Velejo
Em meu próprio mar,
Seu fundo não vejo,
Ainda assim, tomo ar
E mergulho
Em seu suave
E doce murmulho;
Sigo em minha nave
Para onde quer que o vento aponte
Mesmo sem ver o que há
Depois do horizonte;
Bem para lá
Navego,
Perco-me e não nego;
Comigo carrego
Apenas um cego
E sincero desejo
De velejar e, então, velejo.



Versos...


Maríntimos

I

Frag
       mentos
nau
      frágio
nau
      frágil
vaga
vagas
vagam
nau
      vaga
              navega
    ondas
vagas
Vega
vago
na praia
no mar
    do
        mar
              à
                praia
            de
   volta
ao
mar
onde
navegas
navegamos
naus...
que soçobram
quase
         sempre
quase semple
o fazem,
   não sobram
nem os arrojos,
mas
      às vezes
raras vezes
elas
      sovelam
                   vagas
                 e
      vagam
no mar
          do mar
   o deleite
o mar
amar





Minha


Obsessão
a w.g.
vagava entre vagas de volumes,
livros e estantes,
sorrateira serpente,
voltava sempre
à mesma seção,
à mesma sessão.





Vejo

Vejo

Noite
Nume
Nada

Sossego
Sibilo
Suspiro

Vácuo
Vão
Vazio

Mudo
Mistério
Morte

Desejo

Então

A lua
(nua
e
crua)

Ça...


C'est la vie

Cair do terceiro andar
e sobreviver
erguer-se
seguir e morrer
digo
correr
e correr outra vez
da morte
e
com sorte
escapar para te ver.


sábado, 23 de abril de 2016

Outro mapa


Minha Vênus II

Ó, Vênus!  Ó, tu!
Que ama sem nome;
Que ama com fome;
Que ama um amour fou.

Mapa


Minha Vênus I

Minha Vênus não sabe amar
              como ama a burguesia.
Às vezes parece afasia,
              mas é que o amor no linguajar
              comum não diz o que sinto.
Daí, ou seguindo meu instinto
              faço outra coisa que amar, ou minto
              dizendo que amo muito
              com um fingido olhar retinto.
Pois não me agrada a segurança do cinto
              que garante vida longa ao rei;
Pois no meu peito bate
              algo que eu só sei
              chamar de amor fati


Nudismo

Mutismo

Tua mudez
Expõe
Minha nudez
Que expõe
Meu vazio:
                 Um rio
                         Sem sentido.


Um caso de...

Adultério

Sr. Passado e Srª. Saudade
Formam um belo par;
Seu Futuro e Dona Esperança
Logo vão se casar;
Mas não sabem eles
Que é na cama do jovem Presente
Que elas amam se deitar.


Décima terceira nota


Perfume impagável 

O cheiro que exalam as peles quentes após uma bela transa
É um perfume sublime
De uma animalidade urrante...

Sons do tempo

Tentando escrever estes versos

Tentando escrever estes versos
Observava pela janela à chuva.
As gotas caíam do telhado sobre largas
Folhas de uma bananeira
E soavam como um metrônomo a me avisar
Que envelheço,
Gota a gota,
Mas com uma beleza que um relógio
Nunca terá.




Eu



Espero

Que doe sem doer
Que dure sem ser duro
(Doa a quem doer)

Cartografo:


Mapa

Eu, pisciano irremediável,
Sagitariano doente,
Sou um tipo meio nômade
Dos pés e da mente.


terça-feira, 19 de abril de 2016

la fleur,

uma flor roxa

uma flor
roxa
quase negra
quase um buraco negro

me aproximo
cheiro e
na medida em que sugo o perfume
sou sugado
em minha alma pela flor
roxa
quase negra
quase um buraco negro

próximo
cheiro e
sinto meu corpo sendo flor
florescendo
corpo-flor
corpescendo
corpo sendo flor
perfumo-me
dou minha alma à flor
almática
ela se humanifica
humanescendo
sendo humano
ser humano
flor e ser humano
florescer humano
flor é ser humano
florumanescer
florumanascer...




alguém


preciso

preciso
de  alguém
            preciso
preciso
de alguém
que me segure
            preciso
preciso
de alguém,
algures,
nem que seja eu
            preciso
    precioso
preciso
de alguém
que me segure
      hold me tight
please, hold me tight
em
espirais
descendentes
    a aprofundar
            a acelerar
                      a cair
            falling
                        apart
            falling
                        in
            falling
        in 
  love
.


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Será?

No banco



Dia agradável. O sol ilumina o céu, de forma esparsa pode-se vê-lo por entre as nuvens. Isso dá ao dia um clima ameno. Uma brisa fresca completa o cenário tão convidativo a se aproveitá-lo ao ar livre.

Sento-me num banco num caminho ladeado de pinheiros mais ou menos regularmente espaçados. Os transeuntes dão um charme à paisagem. Alguns tão prosaicos, outros mais exóticos; são um verdadeiro hall de tipos. Passa uma moça de dreads loiros em uma bike; depois colegas discutindo de modo veemente as questões da prova; um jovem solitário de cabelos cacheados compenetrado em seu celular move-se rapidamente. Vários rostos, cores e caminhas vem e vão.

Começo a reparar no modo como caminham, a passada, a inclinação da perna e velocidade dos movimentos. Uma amiga uma vez me disse que nos apaixonamos pelo andar doas pessoas. Será? Quando ouvi isto aquela vez dei de ombros. Mas hoje, olhando tais pessoas aqui nesta alameda, pensei: será?

Reparo em dois jovens, um rapaz e uma moça. Parecem ser amigos, há a afeto em seu olhar. Penso: será? Será mesmo? Meu cérebro que adora dar piruetas gira, gira e gira seus pensamentos, meus pensamentos e para... Em ti. Será?

De repente, ele substituo a moça por ti. Imagino-te caminhando, indo, afastando-te donde onde eu observo. Mais uma pirueta e já não estamos mais entre às árvores, estamos cerrados em um aeroporto. Meu coração se agira e isso me surpreende.

Outra pirueta cerebral e já não te observo ir, mas vir. Agora sei, estou a te ver chegar. Estava a esperar teu voo chegar. Neste momento vens em minha direção. Meu coração buliçoso bombeia euforia pelas veias. A imagem causa efeitos que me deixam atônito, alegre e ansioso. Queria que aquilo se realizasse, transbordasse aquele devaneio. E o que mais me surpreende, não imaginei mais que teu caminhar. Não desenhei teu rosto, apesar de saber que sorrias. Talvez minha amiga estivesse correta – ao menos em partes. Teu caminhar é o suficiente para que eu perceba minha paixão, quase pueril, para que eu perceba o quanto te quero.

Sem me ver caminhas em minha direção saindo da área de desembarque. Teus passos se detêm por segundos, posso ouvir teu riso. Corres e atiras-te em um abraço apertado. Um beijo e volto ao banco. Meu coração palpita. Um raio de sol atingia meu rosto, despertando-me. Deleito-me enquanto meu coração desacelera e distraio-me a observar um sabiá manco que saltita sem receios por entre aqueles pedestres. Será?



Manco



Sabiá



Sento-me num banco;
O tempo me agrada;
O local me apraz.

Um sabiá manco
Saltita na estrada
Com a brisa logo atrás.

Aspiro profundamente.
Sugo perfumes, aromas
E memórias ao vento.

Misturo-os na mente
E tu então me tomas
De assalto o pensamento.

O cheiro tão doce
E quente dos cabelos
Teus me embriaga.

Mas acordo, como fosse
De um sonho, pelos
Pios do bicho que vaga

Sob meus pés a chilrar.
Ele me saca sem aviso
Deste devaneio lento

Em que te sinto no ar;
Deixa-me apenas o sorriso
De te ter por um momento.

Sintido

Título

Início

Meio

Fim


terça-feira, 12 de abril de 2016

.

Há mares
que vem
pro bem.
Há marés
também.
.


Poeforisma ou

Aforismoesia

A não contradição
   é uma exigência
               platônica.


sábado, 9 de abril de 2016

Nós,

eles

Passarinho na gaiola
cantando,

Criancinha na escola
brincando.


Pobres,

Pobres de nós

Pobres tico-ticos nos fubás,
Pobres saíras e sabiás,
Pobres ainda os canarinhos,
Pois moderno que somos
Chamamos todos de passarinhos. 


sexta-feira, 8 de abril de 2016

memória


Na pele

Na pele eu lia:
"o amor deixa marcas
                     no outro  dia."

God bless you

...

to bless
     blessé
the blesser
     blesser
     blessure



Ou não

Das sutilezas

I

Le cretin

Le chrétien



II

L'éleveur

L'élève


III

Légalité

L'égalité


IV

Dart

D'art



V

Grâce

Grasse





Somáticos

Somos

Des-
   troços
 Traços
 Rastros
 Riscos
 Restos
 Rostos (desfigurados)
 Risos
 Rios
           em
                  fluxo
                            ...



Le petit prince a devenu...

Le Prince Charmant

Pequeno príncipe, coitado,
cresceu, virou encantado,
enfastiou ao não dar tesão
por sua fala de imperfeição.




e o viajante


e a viagem


 vislumbro menos uma rota
 mais uma pulsão
 uma seta
[mesmo que não se realize]
 uma potência
 viajo
 espero...
[não!]
 espero, não, parto
 e partindo
 produzo um contínuo
 que flui em vir-a-ser
 sem parada
 ainda que parado
 no mesmo lugar
 viajo
 seta
 sem rota
 sem chegada certa
 que a morte


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Mar

Gosto

gosto de me perder
de me encontrar
me dissolver
retornar
ao mar...


sábado, 2 de abril de 2016

:)

Outro sorriso

por trás de óculos antigos com lentes de seriedade
havia...
...eu via
um sorriso
cor de criança,
pueril, bonachão, idiotismo.
 um sorriso que destroçava toda aquela seriedade
acadêmica,
pedante e barroca
sem perder a sobriedade,
ou o encanto daquela força intelectual.

(...)

mas aquele sorriso,
que roubou meu olhar,
esvaneceu-se,
evaporou-se,
sem deixar rastro.
não fosse eu ali,
seria um lugar vazio
então...


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Rio as palavras

Rio-poema

Palavras na estante,
Palavras estanques.
Ponho-as a correr,
faço-as afluir,
rio-as em
frase-córrego.

Mas as palavras
são pedregosas,
sintáticas.
Encalham nas curvas das frases,
amontoam-se umas sobre as outras
nos pontos e vírgulas,
atolam em gramáticas,
param de correr
e viram poça.
E palavra parada,
empoçada,
prolifera mosquito
verborrágico.

Frase-sem-poça,
frase-sempre-rio
é cristalina sem cristalizar,
ou turva sem decantar.
Frase-sem-poça,
frase-sempre-rio
é rio-poema.