segunda-feira, 23 de maio de 2016

je me demande:

Quem sou eu? (5)

O que faço, então,
de mim,
sendo eu isso
que não é senão
sem ser?

O que faço de mim,
sendo eu isso
que escorre
sem chegar,
sem se deter,
sem dereter totalmente?

O que faço, afinal,
de mim?
Faço frevo,
e folguedo,
faço fogo,
e festim!



A pergunta me retorna:

Quem sou eu? (4)

Viíus
          quase-vida
          parasita
          meio-algo
          à espreita
          à espera
          Carrapato
          sedento por sangue
          semi-alguém
          à beira de ninguém
          roubo
          fujo
          replico
          multiplico
          devoro
          degluto
          morro
          uma meia-morte
          quase-morte
          morte de suspensão
          suspeito
          suspenso
Vírus


Insisto na pergunta:


Quem sou eu? (3)

Sujeitado
Sujeito
Sub-jeito
Re-jeito
In-jeito
Ex-jeito
?-jeito
(de que jeito?)



Volto a perguntar:


Quem sou eu? (2)

Pessoa porosa que sou,
Não sou um,
Mas estou entre
Vários e nenhum.





Pergunto:

Quem sou eu? (1)

[Não!
Falsa questão.]
Nem ser
Nem seu oposto.
Meu gosto
É viver
A potência de vagar perdido
No deserto do terceiro excluído.






Brinco ainda

Nom-

Nomos = lei
Nome = rei
Anomia = pirei


Brinco outra vez

Ser </> Devir

es   est   et ]

[ és    é    e ]



Brinco mais

Y

y
e      aí
y



Brinco

vag-

a vaga vaga vaga
vaga vaga vaga
vulga vaga vaga 
                      vagamente
                 vaga
vaga vaga vagava
vago vaga vagamente
vaga
vagas
vago
vogas
voga
viga
vega
vegan



Minha companhia


Minha solitude

Uma xícara de chá
acompanha minha escrita através da madrugada.

Várias coisas passam pela minha mente.

Umas galopam,
outras rastejam,
algumas escorrem,
outras, ainda, queimam.

Várias coisas se passam na minha mente.
Várias coisas me vêm à mente.

Compromissos, filosofias,
Dúvidas, aporias,
Pensamentos vagos, ideias vazias,
Memórias específicas,
Imagens translúcidas,
Redundâncias e afazias.

Vou atravessando a noite
À companhia de uma xícara de chá,
De uma caneta e de um papel
[Imagem tão démodé quanto a expressão].

Percebo que gosto da minha única real companhia,
A de mim mesmo;
E, para alçar tal nível de apreciação de mim,
Que no fundo é um bando de gente;
Para apreciar minha solidão, meu único bem aqui
- a solidão de meu corpo, sentimentos, pensamentos, desejos e dores -;
Para alçar essa grandeza de espírito,
Precisei de ti,
Precisei que doesse,
Que ardesse,
Que me enfurecesse,
Que me fizesse chorar,
Precisei que silenciasse,
Que ardesse mais,
Que queimasse,
Que urrasse,
Que me fizesse urrar,
Que me esmurrasse,
Que me fizesse esmurrar a mesa,
Que me tirasse a fome,
Que me furtasse o sono,
A paz, a vontade, o tesão;
Que me roubasse tudo,
- tudo que eu cria ter,
tudo que no fundo me possuía
sem ser meu -,
Precisei que eu me dobrasse,
E desdobrasse disso que estava colado em mim ,
Precisei que sumisse,
Precisei que faltasse
Para ver que nada faltava,
Para ver que tudo estava ali,
Logo ali:

Eu!

Eu, meu amor!
E pude recobrar-me em meu maior amor:
Minha solitude.


[grato ao sol, 
grato à lua 
grato às águias 
grato aos ratos, 
baratas e vermes da terra]

Escrevo

Déjà Lu

Escrevo.
Não escrevo como quem revela.
Nada de escrita profética.
Não professo.
Não sou professor.
Não desvelo.
Não revelo.
Não iludo.
Não esclareço.
Não prometo o progresso.
Não prometo ser fiel
        [nem a mim mesmo].
Não salvo.
Não batizo.
Não liberto.
Não conscientizo.
Não minto.
Não falo verdades.
Escrevo.
Escreve-se.
Escrevo para quem?
Escrevo para nada.
Escrevo por disfunção
              [psicossocial].
Escrevo para avariar.
Escrevo para desabilitar.
Escrevo para desabitar.
Escrevo para descoisar.
Escrevo para fazer des-ser.
Escrevo para fazer descer ao limbo do Terceiro Excluído.
Escrevo para lançar ao mar que separa os continentes do Ser e do Não-ser.
Escrevo para navegá-lo com palavras a arar suas vagas negras.
Escrevo para atracar em uma ilha deserta.
Escrevo para povoá-la ou saqueá-la e zarpar de volta ao mar do Esquecimento.
Escrevo para esquecer.
Escrevo para tornar esquisito.
Escrevo para tornar inútil.
Escrevo esquizo.
Escrevo para não prestar.
Escrevo para sobejar.
Escrevo para esvaziar.
Escrevo para desviar da escrita que explica.
Escrevo para desencaminhar da escrita que controla e comanda.
Escrevo para fugir da escrita que dita a verdade.
Escrevo e escrevo e repito até cansar.
Escrevo para escapar do efeito déjà lu.





Nota num canto dum caderno

Sobre a ruína

Quando, em sua perpétua guerra,
A natureza vence mais uma batalha
Contra as forças humanas
E as estruturas vem a abaixo,
O que sobra é a obra - ruínas.


Euseieusou

je suis une ruine

Lutando contra a gravidade,
A cultura me ergueu
Cidadão, homem, razoável.

Equilíbrio delicado
De matérias pesadas.

Mas meus avós,
Meus pais e mestres
Não venceram esta guerra.

A natureza, impiedosa e brincalhona,
Derrubou as peças empilhadas.

As paixões
- dores, alegrias
misérias e agonias
glórias e extasias -
Arrancaram os tijolos de sentimentos
De sua firme argamassa de certezas.

Às tragédias e venturas
- ad venture -
Não resta homem,
Não resta eu,
Resto resto.

Eu sou uma ruína.


je te donne ces verses,

mon cher

je pense à toi
je vais à toi
je t'ai touché
je ne te tiens pas
je te laisse
je suis allé
je te suis
je me détourne
je suis loin
je pense à toi encore
je te perds
je te rencontre
je rentre à moi
je me suis
je me suis allé
je vais
    [ rien, hors moi, ne m'a tenu
     personne me va tenir ]
je vais
     au revoir.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

resistente/reticente:

poema do inacabado

sinto algo.
sinto-o vir.
sinto-me construí-lo.
sinto-me fazendo-o crescer.
sentimento crescente
espalhando-se por todo meu corpo,
ecoando em minha mente,
bem no meu peito.
sonho e saboreio-o em meu lábios
nada muito dizível,
mas resistente,
reticente...
não quer desistir,
também não o quero.



terça-feira, 17 de maio de 2016

prover por-vir

medomotor


Desgraçada,
Fui perdendo a graça;
Meu corpo foi se fechando;
Fui perdendo a capacidade
De afetar e de ser afetada;
Fui dobrando-me sobre mim mesma;
Interiorizando-me;  
Fechando-me;
Fui gerando um bolsão de ar,
De dor,        
De nada,
De medo!
Gestei uma ratazana na barriga.
Ela foi ganhando corpo
E em alguns meses
Tinha de escolher: ela ou eu.
Escolhi - e aquela mulher morreu...
               e eu devim roedora,
               não me tornei nem me torno nada,
               mas deslizo sem nunca parar numa forma;
               movida por essa força-rata
               de nova em nova,
               de outra em outra,
               sem nunca ser nada...




Alguns...

Versos átimos

Se eu te dou estes versos
É porque preciso que eles
Não sejam mais meus;
Toma-os,
Mastiga-os
E decide se queres engoli-los
Ou cuspi-los.

Dou-te o beijo amigo,
O barco que vaga sobre o mar,
O mar e as suas vagas,
A vaga sensação do retorno
E a distância entre retornar
E partir.

Partido e partindo vou;
Vôo por sobre as ondas   
Como um Ícaro precavido,                                
Ao menos assim o espero,
Pois sei que o sol me atrai
Tanto quanto o mar me seduz
E no fundo sigo
E digo
Da chama em meu peito
Que a brasa se reduz
E nela acendo um cigarro.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Espero...

le grand midi

espero pelo grande meio-dia
quando nada mais esticar
sua sombra sobre mim
quando mais nenhum olhar,
nenhuma memória ou mão
deitar-se sobre o ar
a minha volta ou...
sobre meu coração a cantar.





Dois em um

Do cavaleiros em mim

um, catatônico
ao fundo de um abismo de lamentações,
amor cortês,
e corações partidos em três

outro, cavalga
por partículas de afetos
                   (paixões)
que o fazem partir
para novas paragens
novas paisagens
novas vias
e viagens

(sem lugar, não-lugar, atopos)

Desejo Utópico

Um desejo utópico me  invade:
Estar no corpo de outro alguém,
Transpor os corpos:
meu corpo, teu corpo, corpo de ninguém.
Dissolver e espelhar.
Quem um dia já dançou nos pés de outrem?


avante!

anti-soneto dionisíaco

sobejar-me de mim
transbordar-me pelos poros
                   despertar a pele
inundar-me os olhos
                     saturar a visão
escorrer-me pelos ouvidos
            desencaixar os sons
vazar-me narinas a fora
            borbotar os aromas
escorrer-me pelos boeiros de identidades
escoar-me dos sentimentos
                         e tudo mais
que tem nome e cor
          daltonismo proposital
                  miopia intentada
desaguar-me em harmonias cacofônicas
desalmatizar a língua
lamber o chão e sentir a terra
             (re)corporeificar(me)
refincar minhas garras naquilo que me cabe
               o que me cabe?
nem deus sabe
                                       "sóeusei"


Nous sommes faibles

Ob.ser.vo

Grades grossas de metal
ou espessas portas de madeira
[apenas uma janela mínima
 permite acessar o exterior
 em doses psicopáticas]
encerram em cubículos
com menos de três metros quadrados
corpos dopados,
corpos adoecidos,
corpos (des)moralizados.
Cubículos recheados
com latrinas fétidas,
[porta de saída de
 dejetos e rejeitos,
 porta de entrada de
 ratos e baratas]
com o cheiro do vaso,
com camas pífias, parcas e poídas,
com paredes plenas de um branco asséptico,
que falam de uma paz que é pura violência.
Diante deste cenário,
no qual não duraríamos um dia,
no qual eles passam uma vida,
percebo: nós somos (os) fracos.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

pranto pós-poético


entre vivências

            e 

memórias

(                 )

           vacúolos

| espelhos sem reflexo |

               intermezzi

...reflexos sem espelhos...

 não-espaços

                    {}

heterotopias
           [ de criação ]

           Ø

quarta-feira, 4 de maio de 2016

afirmativo categórico

(

chore
escorre
rega
floresce
ri
até gargalhar
depois segue
(teu caminho)
e me abraça
se calhar.


Et moi?

Moi,

j'attends
j'espère
j'entends
j'éclaire
j'entends


dissincronia somática


crônicas dum corpo em refazimento

meu olho farto enchiam o prato
para o estômago de um coração ansioso,
um comedor nato,
mas agora eu tinha o estômago
de um coração doído.
do prato ansioso
não pude dar conta,
tive de deixar algo ali:
a sobra
duma falta,
duma perda
que no fundo é ganho,
pois nada se perde,
nada se gera,
tudo se transforma...



segunda-feira, 2 de maio de 2016

Mais versos...


Maríntimos

III

Vês quem viu o irremediável
Naufrágio de tua última quimera?
Somente a solidão mais sincera
É tua companheira inseparável.

Acostuma-te à sina que te espera;
Aquele que sulca o mar, inafrontável,
Ainda que prudente, vê ser inevitável
Tornar-se mar ou afogar sua galera.

Toma o leme, toma um trago;
O beijo amigo e teu afago
Não virá senão do teu amor,

Que é teu e só teu será;
Ama o destino e o que virá
E hás de atravessar toda dor.