quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Haikaos

X

Sem aves, a vida
estilhaça meu sossego
secreto e sozinho.

Haikaos

IX

Soluço dum sol,
gesto de quotidiana
fermentação muda.

Haikaos

VIII

Caminhos por versos,
escrevo-os com minhas mãos,
meus olhos os sentem.

Haikaos

VII

Contente e serena
podes escrever o último
pensamento no ar.

Haikaos

VI

Vi manhã sem seios,
indiferente guardei
intransferível

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Canto



  Passionarinho

Teus olhos
céu
em cuja cor
minha alma pode passarinhar

Teu corpo
árvore
em cujo calor
meu corpo se pode aninhar

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

nuez

baixeza

nos versos e avessos
boquiabro-me
nuez após nuez
hei
ainda
de deitar fora outra camada de minha pele
gaguejando em meu avesso
versado em palavras duma baixeza...
indizicernivante!


Sorrio e tropeço

caminho

caminho em tuas palavras
vou e volto
tropeço e sorrio
e sorrio mais que tropeço

sorrio diante da grandeza
da beleza
do encantamento
do desconcertamento
do brio
e do fio de sorriso
que costura minha boca

tropeço e sorrio
e sorrio mais que tropeço
sorrio por dentro até vazar os lábios

bem queria dizê-lo tête-a-tête
mas
nessa condição
quedaria silente

só poderia dizê-lo
em gestos
(da mão
da cabeça
dos lábios... silentes)

ou a salvo
a distância
(quilômetros de palavras)

tropeço
e sorrio
e sorrio mais que tropeço

como quem se descobre maior
em tua grandeza
indo e vindo em tuas palavras
sorrindo e tropeçando de alegria


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Coisa d'Alice

8

Admito
Pedi ao vento
Ele soprou

Coisa d'Alice

7

Longe
Perto
Entre

Coisa d'Alice

6

Descarada
Com que cara
Eu vou?

Coisa d'Alice

5

Não queria ter sono
Queria continuar
A tecer esse pano

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A dois

Reconheço

Reconheço,
perdi a medida

sobrou apenas
a grandeza.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Danço com São Carlos

Reticências

Tinha um ponto no meio do verso
No meio do verso tinha um ponto
Tinha um ponto
No meio do verso tinha um ponto

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minha retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do verso
Tinha um ponto
Tinha outro ponto
E ainda mais um ponto no meio do verso
No meio do verso tinha três pontos.



Oro

Por um milagre dionisíaco

Conter-me
a mim mesmo
nem é tarefa tão difícil assim
Mas como conter
o que transborda em mim?



Ser tesa

Certeza

certeza...
daqui eu fujo...
nem que seja
pra dentro de teu olhar...


Só sobrei...

   Sossobrei

     Sossobrado em
      sentimentos
       sensações
        sorri
             so
                s


In memoriam


Il a dit

Ele fora um presente de deus,
 Mas só o percebi trop tard...
              (Já o havia perdido.)


sábado, 29 de julho de 2017

Haikaos

V

Eu, tranquilamente
contente, iniciei
segredos de espuma.

Haikaos

IV

próximo repente
um repouso de mulher
automobilística

Haikaos

III

repente despeito,
quotidianos naufrágios,
colorindo atalhos.



Haikaos

II

Tão tranquilamente
um cego lendo teu rosto
vê teus pés cansados

Haikaos

I

gemedoramente
chove fosse oceano
cego como vida

dum carvalho

poema roubado

Meu quando
Não é de datas
É de gestos
É de palavras


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Coisa d'Alice

4

voto de silêncio
para não gastar
os lábios


Mil vezes...

Cobarde.

Sou cobarde.
Tão cobarde
Que não o digo em claro português.
Cobarde nas palavras,
Cobarde nos gestos,
Cobarde!
Talvez melhor assim...


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Coisas d'Alice

Indigno


Indignada
Com a indignidade
Índiga dos teus olhos de mar.

versos

calados

na caminhada cotidiana
cada um cose cada coisa
como costurasse com cuidado
camélias e crisântemos
catados no curso
compondo um cachecol
que cobre o colo
que cobre a cara
que cobre o coração



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dois

Ela é f...

é flecha no alvo
na árvore
na caça
              surpresa!
sua presa
observo
a flecha no alvo




Um

Ela é f...

ela é flecha que passa
risca a pele
ou atravessa o peito
     e segue sem cravar
                               ‒ pois se crava
seu destino não é sair sem quebrar
     e sem rasgar a pele
     e sem sangrar
     e sem marcar
   
e sem amar

Coisas d'Alice

2

sou revoada
céu azul
sem berço, sem nada

Coisas d'Alice

1

leve  passarinho
ando meio avoada
sem ninho

terça-feira, 25 de julho de 2017

meio sem jeito

Rabisco de soneto


Ah! Quanto tanto em meu peito!
Que eu o preciso falar,
Que eu preciso é gritar;
E nem que gozasse no leito

Por horas e horas a fio,
Seria tanto tanto quanto
Essa coisa de andar por um fio
(Ainda que dissolva algo no pranto)

Sem soltar sequer um pio,
Sem deixar escapar um ai,
Desse sentimento que vai

Queimando-me do mais alto fio
de cabelo até a sola dos pés
‒ e nem posso dizer que tu és!


moção

monumento


digo: sou torvelim
um quê almático
e somático
e ático
e
a ti
com
amor
escrevo
o avesso
de versos
românticos
nessas linhas
que são como sou



talvez

(que talvez não valha o risco de navegar)

     deste meu jeito trôpego
torpe turvo e torto
     sou mar revolto
em costa sem porto



soneto

Crônico

Eu, no alto desta torre,
Um lobo solitário,
Um ser celibatário
Que pouco a pouco morre,

Tornei-me presa dum
Amor tão intocável
Quanto era incomum.
E se irrealizável

Queda; não há uma chaga sofrida
Que não valha o amor aspirado.
Chronos tem-nos amaldiçoado

Não por uma juventude ida,
E sim por uma via escolhida
Em tempos que já nós são Passado.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Nós

Incorrigíveis

Dessas línguas
que nos cabem
encantadoramente,
exatamente
e incorrigìvelmente
em nossas bocas;

Dessas línguas
que nos viram
do avesso
e num tropeço
fazem descomeço
em nossas bocas;

Dessas línguas
que nos falam,
nos pegam e piscam,
nos beliscam e petiscam,
nos arriscam e enroscam
em nossas bocas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Rascunho

patético

Diante do que sinto, dizer o mais óbvio é o mais verdadeiro (e sincero) e o mais mentiroso (ou inverossímil) : é uma paixão.

Pura verdade, nada mais que a verdade, posto que é isso : paixão – no sentido mais nobre (páthos) e menos niilista –, mas também completamente outra coisa que isso que românticos e moralistas apelidaram de paixão — uma versão satírica do amor, caricatura esdrúxula do que um dia nomeou-se paixão.

Sinto quase como um dever descrevê-la, porém é quase como uma impossibilidade fazê-lo – preferia não, mas... Então descrevo o que se passa e que de resto cada um tome para si. Veja que não digo "interprete como quiser" – às favas com as interpretações e com a comunicação –, digo "tomar", i.e., roubar, apossar-se de algo sem dono (e jamais possessível em absoluto). Que façam disso algo seu e que não tentem dizer o que isso significaria para mim, pois isto só deus – já falecido – poderia fazê-lo.

[...]

fuga menor

Fuite

elle fuit
(elle a fui)
quand je dis
(quand j'ai dit)
tout ça qu'elle sent
(qu'elle a senti)
tou ça que nous sentons
(que nous avons senti)
sans la poétique à la langue.
Maintenant, je ne sais que faire vers(er) ma vie.


domingo, 16 de julho de 2017

Músicas de João de Barro #3

Sr. Passarinho

coisa curió essa
chamar de passarinho
a sabiá

há nome aos borbotões
é tico-tico é quero-quero
é bem-te-vi

é trinca-ferro
joão-de-barro
é colibri

é cuco
é coleirinho
é sanhaço
é tié

é teque-teque
é martinho
é pitiguari
é pichororé

é simples
é surucuá
é udu
é tiziu

é composto
bico-de-lacre
é saíra-de-sete-cores
na beira do rio

é trinado
é musicado
é máquina
chilradeira

é anu
é anacã
é jaçanã
cor de madeira

é pintassilgo
é maritaca
é cambacica
é canarinho

é gaturamo
é vira-bosta
é trovoada
o passarinho


Apneia

equação


                         .

                      deia
                         .

                    dioniso
                         .

                    dioneia
                         .


Gosto

SAPOR VERBORUM

                                                       Gosto de verbos, 
                                                            Sempre a acontecer,
                                                                 Mais que de substantivos,
                                                                      Sempre tão cheios de ser.


sábado, 15 de julho de 2017

Mono-no-

aware

uma inocente busca pelas horas :

                    (suspensão)

apneia
            afasia
                       borboletícias estomacais
           aleteia
aporia





domingo, 25 de junho de 2017

verdadeiras músicas de liberdade

Deixe as flores pela porta

a busca de si se conclui no último suspiro:
um conto em cujo fim lê-se que...




TERRA LIBRI

LIBER TERRÆ

há quem diga que o mundo é um livro
se o for
aberto ou fechado
é um livro de poesia

o poema do mundo chama
sem cessar
pro
posições de de
ciframento

livro cujos sen
tidos dançam entre o
já não é e o
ainda
não



Parelho/Parélio

Autrement


abrir uma janela
encontrar o inimaginavelmente outro
clandestino numa viagem imóvel
encontrar-se no último suspiro






Sob um umbral

LÆTITIA INEXORABILIS

de boca cheia
de coisas sem nome
soube que não sou ninguém

não ser ninguém
é duma riqueza inenarrável
duma alegria inexorável


eu?

passageiro clandestino de uma viagem imóvel

numa vacuidade atômica
inventei uma desverdade:
     desfazer o amor
     para devir capaz de amar;
     desfazer seu próprio eu
     para estar enfim só.


Moi, je crois et crée...

Un soleil mineur

Chove a quarto dias,
   a quatro dias não vejo o sol.
                    [...]
Chove a quatro semanas,
   a quatro semanas não vejo o sol.
                    [...]
Chove a quatro meses,
   a quatro meses não vejo o sol.
                    [...]
Que tipo de vida medra onde o sol não toca?
Que tipo de vida posso
   eu que não vejo mais o sol?
Se não há sol no horizonte,
   crio eu meu próprio sol?
Dissipo nuvens em mim,
   para poder vivê-las dissiparem-se lá fora?
Para sobreviver,
   independe ao sol que não me pertence,
   crio eu um sol menor?


verte-se

vértice

ver-te-ei
verterei


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Aux voyageurs,

Mon voyage

"Le voyage commence à la bibliotheque..."
Minha viagem começa no alto de uma página amarelada.
Segue letra por letra,
marca por marca,
palavra por palavra,
linha por linha,
frase por frase,
bloco por bloco,
parágrafo por parágrafo,
página por página,
e vai...
até desembocar.
[desbobra]
Rio gráfico que encontra um oceano de experiência.
Palavra escoando sobre as terras do pensamento,
desaguando no leito de meu corpo,
delta de meu nilo.
Letra que se dissolve no amazonas de minha existência.
desdobra-me, abro-me ao fora da existência,
estrageiriso-me, estranho-me,
desfaço-me, esfacelo-me,
desfalece-se em mim,
desabrocho em mar...


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Ce gouffre,

L'angoisse

Disfarço-a,
    assim, noutra língua.
Meio brincando,
    meio... dissimulando.
Questão de sobrevivência, sabe.
Pois, na transparência,
    a vida, crudelíssima,
    não deixa verdade sobre verdade.
Arte, então, é minha força; vigorosíssima
    habilidade humana
    de rir da desgraça e fingir não doer
    para poder seguir sem desfalecer,
    para poder gozar de alguma alegria
    no átimo que é viver.


domingo, 14 de maio de 2017

Crer para ver

Credo

Ele creu
Pacificado o recôndito do Eu.

Néscio sonho
De um mundo medonho,
Em que a miséria
Da calma e séria
Vida cheia de razão
Cobre como véu céus e chão.

Néscio sonho
De um mundo medonho
De culpa e perdão,
De poder e salvação,
De certeza e lembrança,
Em nome da bendita segurança.

Ele creu
Iluminado todo o resquício de breu.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

A M. Quintana

Grandiosidade

I

Grandiosa não é tua poesia porque me emociona
Ou agita meus pensamentos com um anexim.
Grandiosa é tua poesia porque me assalta
E leva um sorriso de mim.

II

Tua poesia é menos redentora
Do que é um animoso festim.
É ela sim um diabrete sintáxico
Que faz de meu riso seu butim.

III

No carnaval das palavras
Ela é  um ardiloso arlequim
A dar rodopios com meu humor
Trajado em fausto negro e carmesim.

IV

Tua poesia não é urbana,
Não ergue prédios em mim.
Vaga silente no deserto
De meu corpo, povo beduim.



quarta-feira, 29 de março de 2017

Walking in the gate...

Stumbling in the fate



As a stumble in the fate
A picture of you there I saw.
Wasn't it too late
To avoid any flaw?
My eyes filled up,
My mouth dried out,
My mind went crazy
And my heart...
 [ Oh - My - Heart ]
...it got faster.
All my body
Became a party!


quarta-feira, 8 de março de 2017

Poeria teótica e Teoma poeria e Poerema teosia e...

Humorística poerética e Poeresia (além do bem e do mal) humorada e Humorético poétismo e...


O ápice duma poesia
Não é o joguete de sentido;
Tampouco é inscrição de aporia.
O grande experimento aí vivido
Não é fazer mergulhar em profundo sentimento
       (de letícia ou tristeza);
Nem mesmo causar grandiloquente pensamento
       (de dúvida ou certeza).
Grandiosa é a poesia
Que, na calada da noite
Ou em plena luz do dia,
Furta uma risada num açoite;
Assim, de assalto,
Desarma o corpo e sem calma
Faz dar um salto
       (mente e alma).


segunda-feira, 6 de março de 2017

Esvaziar-se de certeza,

Encher-se de sertão

Ser tão vazio
De certeza
Quanto pleno
Dum sertão 
(Vazio).


Realidade e profecia,

Dissonância 

"Ela torcerá teu pescoço"
Dizia a profecia.

"Mal tocou tua pele"
Dizia a realidade.


Uma paixão...

Em cinco minutos

Eu a vejo
Ela,
Ali.
Eu a vejo,
Ela que não faz a menor ideia do que se passa.
Eu a vejo
De soslaio.
Eu a vejo,
Pele alva.
Seria a lua?
Não,
A lua está longe,
Lá onde não a posso ver.
E eu,
Eu a vejo
E por cinco minutos ela é a única.
Única,
Assim,
Como a vejo
E ela,
Ela não faz a menor ideia do que se passa,
A menor ideia de mim,
Mas isto me é suficiente.
Ver seu cabelo negro,
Negro a meus olhos daltônicos,
Mas isto me é suficiente.
Não sei nada dela que não seja este pedacinho de ser,
Isto que vejo.
Poderia amá-la através deste olhar?
Sim,
Por cinco minutos.
Por cinco minutos a amo.
A amo de todo de meu coração,
Com a plenitude de minhas energias.
Eu a vejo.
Eu posso sentir seu perfume,
Ainda que meu nariz não fareje nada;
Eu posso escutar sua voz
E mesmo seu jovem coração a pulsar,
Ainda que meu ouvidos não a possam ouvir;
Eu posso apalpar sua pele,
Ainda que a distância seja demasia para que eu a toque;
Eu provo o gosto de sua boca,
Ainda que permaneçamos completos estranhos,
Ainda que sejamos profundamente desconhecidos um ao outro,
Eternamente.
Mesmo assim,
Mesmo desse modo,
Mesmo dessa maneira louca,
Eu a amo,
Intimamente.
Eu a amo,
Verdadeiramente,
Por cinco minutos.
Por cinco minutos
Ela é o amor da minha vida.
Cinco minutos se passam
E não há outro vestígio que estas palavras
Vazias.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Mercredi matin

Quarta pela manhã

Faltou rosto para o sorriso,
Faltou peito para a alegria,
Que me vinham sem aviso
Das palavras que eu lia
Numa quarta pela manhã.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Trio

Terno

Criança
Canção
Criação



Do you see?

untitled

Killing moon
Dead sea

[what else
could I say?]


s.m.

Alterfilismo

Na página onde todos decidiam escrever eu silenciei;
Naquele momento em que o silêncio abundou eu não me calei;
Logo ali sob o sol, quando ninguém mais se ouvia,
Tirei os fones de ouvido para escutar a música daquele dia;
Naquela hora daquele canal a que todos davam ouvido,
Protegi meus tímpanos, tentando que nada fosse absorvido.


Les couleurs pour un oeil daltonien et...

Le temps qu'on ne peut pas compter

Horas,
Ouço os minutos tiquetaquearem
Nas engrenagens e ponteiros sobre minha cabeça.
Este relógio negro na parede alva
Repete incessantemente para que eu não esqueça.

Falas,
Ouço tua voz desmantelar o tempo,
Não posso mais contar os segundos enquanto fito
Este olhar índigo que me faz lembrar
Que, por um instante (esse instante em teus olhos), eu sou infinito.




Acordei só com metade de mim,

Hoje

Depois de um copo de alvor
E dois goles de coragem,
Acordei só com metade de mim;

Depois de um instante de furor
E dois átimos de miragem,
Acordei só com metade de mim;

Depois de uma noite de ardor
E duas horas de realidade,
Acordei só com metade de mim;

Depois de uma dose de amor
E duas pedras de saudade,
Acordei só com metade de mim;

Depois de uma taça de olor
E duas batidas de gracejo,
Acordei só com metade de mim;

Depois de um sonho de alor
E dois tragos de desejo,
Acordei só com metade de mim.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Um movimento em quatro atos, ou...

Ao alto em quatro movimentos

I – A subida

Pus-me a caminhar por uma trilha; uma trilha parcialmente já traçada pelo passado, parcialmente trilhada por mim, no próprio caminhar; porém em quase nada
marcada pelo futuro, quase sem meta.

A certas alturas, a ingremidade exigia-me o uso das mãos, era preciso escalá-la; ainda assim, segui-a.

Após não mais que meia hora de subida o alto da montanha desvelava-se – não apenas enquanto uma miragem que me impulsionaria a subir, mas como materialidade que afetava meus cinco sentidos: eu via o sol delinear formas nas rochas e cortar sombras no solo, ouvia o vento ciciar ao raspar rochas e depois tatear a pele de minha face e arrastar o cheiro da relva quente e dos arbustos ressequidos até mim e o depositar em minha língua partículas da paisagem ante mim.

II – Um olhar

No cume, escolhi a pedra mais alta, a fiz de mirante para admirar a paisagem.

Olhei o céu, mas sem a lua ele não importava, não me interessava em seu ar etéreo.

Olhei o mar, ele chamava-me; meu olhar podia cruzá-lo e chegar às terras longínquas a vários fusos horários dali, terras além-mar, no futuro, que se tornavam presentes, eu não só as vias, eu as podia apalpar; podia também atravessar o mar, sondar o fundo de seus abismos, conhecer suas riquezas íntimas, nele imergir e ouvir seus sórdidos segredos sussurrados.

III – Um mergulho

Contemplei o mar em sua plenitude, imensidão, soberania; contemplei-o num silêncio respeitoso e poderoso.

Meu corpo sentia algo atravessá-lo, era quase domado por uma pulsão – talvez não fosse todo o corpo, talvez se tratasse mais precisamente de um devaneio: mergulhar naquela colcha azul marinho; lançar-se naquele doce lençol cerúleo suavemente fremido ao toque do vento.

Não havia lógica, cálculo ou racionalidade; apenas uma pulsão de atirar-me cego, mouco e mudo ao encontro daquelas águas.

Fechei meus olhos, senti a brisa e imaginei o vento impondo resistência a minha queda e senti o suor do meu corpo ser lavado pela água e meu calor ser varrido pelas ondas nesse mergulho sandeu.

IV – Outro mergulho

Abri os olhos, quase acordando de um sono; virei-me a contemplar a densa floresta que cobria o relevo – uma espécie de oposto complementar ao mar: um verde matizado que formava um colchão macio ao olhar do qual o vento sutilmente trazia o convite a outro mergulho.

Imaginei meu corpo em queda livre submergir no folhame e desassomar entre o arvoredo e ser devorado por aquele víride pélago e ali esvanecer-me – tornando-me nada: nada do que eu era ou fora e por um átimo eterno, lapso de ser da identidade (ou o inverso), poderia ascender.

Respirei fundo aquele ar e o expirei lentamente, guardando em mim pouco mais que vagas lânguidas lembranças.