sábado, 29 de julho de 2017

Haikaos

V

Eu, tranquilamente
contente, iniciei
segredos de espuma.

Haikaos

IV

próximo repente
um repouso de mulher
automobilística

Haikaos

III

repente despeito,
quotidianos naufrágios,
colorindo atalhos.



Haikaos

II

Tão tranquilamente
um cego lendo teu rosto
vê teus pés cansados

Haikaos

I

gemedoramente
chove fosse oceano
cego como vida

dum carvalho

poema roubado

Meu quando
Não é de datas
É de gestos
É de palavras


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Coisa d'Alice

4

voto de silêncio
para não gastar
os lábios


Mil vezes...

Cobarde.

Sou cobarde.
Tão cobarde
Que não o digo em claro português.
Cobarde nas palavras,
Cobarde nos gestos,
Cobarde!
Talvez melhor assim...


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Coisas d'Alice

Indigno


Indignada
Com a indignidade
Índiga dos teus olhos de mar

versos

calados

na caminhada cotidiana
cada um cose cada coisa
como costurasse com cuidado
camélias e crisântemos
catados no curso
compondo um cachecol
que cobre o colo
que cobre a cara
que cobre o coração



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dois

Ela é f...

é flecha no alvo
na árvore
na caça
              surpresa!
sua presa
observo
a flecha no alvo




Um

Ela é f...

ela é flecha que passa
risca a pele
ou atravessa o peito
     e segue sem cravar
                               ‒ pois se crava
seu destino não é sair sem quebrar
     e sem rasgar a pele
     e sem sangrar
     e sem marcar
   
e sem amar

Coisas d'Alice

2

sou revoada
céu azul
sem berço, sem nada

Coisas d'Alice

1

leve  passarinho
ando meio avoada
sem ninho

terça-feira, 25 de julho de 2017

meio sem jeito

Rabisco de soneto


Ah! Quanto tanto em meu peito!
Que eu o preciso falar,
Que eu preciso é gritar;
E nem que gozasse no leito

Por horas e horas a fio,
Seria tanto tanto quanto
Essa coisa de andar por um fio
(Ainda que dissolva algo no pranto)

Sem soltar sequer um pio,
Sem deixar escapar um ai,
Desse sentimento que vai

Queimando-me do mais alto fio
de cabelo até a sola dos pés
‒ e nem posso dizer que tu és!


moção

monumento


digo: sou torvelim
um quê almático
e somático
e ático
e
a ti
com
amor
escrevo
o avesso
de versos
românticos
nessas linhas
que são como sou



talvez

(que talvez não valha o risco de navegar)

     deste meu jeito trôpego
torpe turvo e torto
     sou mar revolto
em costa sem porto



soneto

Crônico

Eu, no alto desta torre,
Um lobo solitário,
Um ser celibatário
Que pouco a pouco morre,

Tornei-me presa dum
Amor tão intocável
Quanto era incomum.
E se irrealizável

Queda; não há uma chaga sofrida
Que não valha o amor aspirado.
Chronos tem-nos amaldiçoado

Não por uma juventude ida,
E sim por uma via escolhida
Em tempos que já nós são Passado.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Nós

Incorrigíveis

Dessas línguas
que nos cabem
encantadoramente,
exatamente
e incorrigìvelmente
em nossas bocas;

Dessas línguas
que nos viram
do avesso
e num tropeço
fazem descomeço
em nossas bocas;

Dessas línguas
que nos falam,
nos pegam e piscam,
nos beliscam e petiscam,
nos arriscam e enroscam
em nossas bocas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Rascunho

patético

Diante do que sinto, dizer o mais óbvio é o mais verdadeiro (e sincero) e o mais mentiroso (ou inverossímil) : é uma paixão.

Pura verdade, nada mais que a verdade, posto que é isso : paixão – no sentido mais nobre (páthos) e menos niilista –, mas também completamente outra coisa que isso que românticos e moralistas apelidaram de paixão — uma versão satírica do amor, caricatura esdrúxula do que um dia nomeou-se paixão.

Sinto quase como um dever descrevê-la, porém é quase como uma impossibilidade fazê-lo – preferia não, mas... Então descrevo o que se passa e que de resto cada um tome para si. Veja que não digo "interprete como quiser" – às favas com as interpretações e com a comunicação –, digo "tomar", i.e., roubar, apossar-se de algo sem dono (e jamais possessível em absoluto). Que façam disso algo seu e que não tentem dizer o que isso significaria para mim, pois isto só deus – já falecido – poderia fazê-lo.

[...]

fuga menor

Fuite

elle fuit
(elle a fui)
quand je dis
(quand j'ai dit)
tout ça qu'elle sent
(qu'elle a senti)
tou ça que nous sentons
(que nous avons senti)
sans la poétique à la langue.
Maintenant, je ne sais que faire vers(er) ma vie.


domingo, 16 de julho de 2017

Músicas de João de Barro #3

Sr. Passarinho

coisa curió essa
chamar de passarinho
a sabiá

há nome aos borbotões
é tico-tico é quero-quero
é bem-te-vi

é trinca-ferro
joão-de-barro
é colibri

é cuco
é coleirinho
é sanhaço
é tié

é teque-teque
é martinho
é pitiguari
é pichororé

é simples
é surucuá
é udu
é tiziu

é composto
bico-de-lacre
é saíra-de-sete-cores
na beira do rio

é trinado
é musicado
é máquina
chilradeira

é anu
é anacã
é jaçanã
cor de madeira

é pintassilgo
é maritaca
é cambacica
é canarinho

é gaturamo
é vira-bosta
é trovoada
o passarinho


Apneia

equação


                         .

                      deia
                         .

                    dioniso
                         .

                    dioneia
                         .


Gosto

SAPOR VERBORUM

                                                       Gosto de verbos, 
                                                            Sempre a acontecer,
                                                                 Mais que de substantivos,
                                                                      Sempre tão cheios de ser.


sábado, 15 de julho de 2017

Mono-no-

aware

uma inocente busca pelas horas :

                    (suspensão)

apneia
            afasia
                       borboletícias estomacais
           aleteia
aporia